Narciso ao Espelho

A 14 de Fevereiro de 1980 deu-se finalmente como provada a influência directa do divino em questões mundanas e terrenas. O mundo não o pediu, é certo, mas quem hoje pode negar o bem que Joel Gomes (glória!) trouxe ao mundo?

Sobre o seu dia de nascimento muitos comentários têm sido feitos. Seguem-se alguns exemplos e respectiva análise.

Comentário 1: “Ai fazes anos no Dia dos Namorados?”
Resposta: Não, faço anos a 14 de Fevereiro. Dia Nacional do Alcoólico.

Comentário 2: “Eiiin! Nascestes na década de oitenta!”
Resposta: Primeiro, não é “nascestes” é “nasceste”; segundo, como não existiu ano 0, o nosso calendário só começou a contar a partir do ano 1. Quer isto dizer que:

a) não estamos ainda na segunda década do século XXI,

b) eu nasci na década de 70


A sua colectividade parental agraciou-o com dois irmãos mais novos, um dos quais, durante uma discussão, demonstrou o seu ponto de vista através do arremesso duma caixa de jóias em direcção à testa de quem escreve este texto.

Não pretendo com isto dizer que foi esta pancada que despoletou um determinado padrão de comportamento que tantos acham adorável, mas que doeu como o tanas, lá isso doeu.

O sujeito que, nos dias de hoje, só veste preto e tem cabelo comprido – já vamos à piadinha do gótico, calma – começou por ser uma criança tímida e reservada (com ocasionais laivos de espontaneidade nem sempre compreendida num contexto social reservado) e é hoje um adulto tímido e reservado, continuando com ocasionais laivos de espontaneidade estudada mas, mesmo assim, ainda não compreendida.

Joel aventurou-se pela primeira vez no mundo da escrita com o seguinte texto: “Fui ao parque. Volto já.”

Com apenas sete anos já se notava na escrita de Joel uma preocupação clara com o espaço e o tempo. A utilização de um sujeito implícito na oração, a negação de um ‘eu’ que sabemos estar presente mas, ao mesmo tempo, oculto: tudo marcas óbvias dum génio ainda longe de revelar o seu total potencial.

Porém, as preocupações de Joel quanto ao espaço e ao tempo não se resumem a estes dois temas como meros conceitos abstractos. Há aqui uma clara especificação de elementos. O parque como local de recreio, de contacto com a natureza, onde tantos e tantos momentos se passam. Depois, o futuro; o regresso rápido a casa, ao ambiente de regras sociais e familiares. É quase como se Joel nos dissesse “Vou aproveitar o tempo que ainda tenho livre para apreciar as coisas boas da vida, antes que elas acabem.”

Bonitas palavras.

Só foi pena a mãe de Joel o ter apanhado a sair de casa. Quis o destino que, por acaso, Joel estivesse de castigo. Enfim…

Já de seguida, a prometida piadinha do gótico.

Nas palavras de Joel:

Em resposta a quem me pergunta se sou gótico, pergunto-vos: ter cabelo comprido e usar só roupa preta torna uma pessoa gótica? Alguns acreditam que sim. Mas porquê só rotularem os mais jovens com essa designação? Eu vejo velhos e velhas na rua, vestidos de preto, e ninguém lhes pergunta se são góticos ou satânicos. Podem ser. Os movimentos gótico, satânico e outros não começaram agora. É bem possível que hajam velhos que reúnam todas as quintas-feiras 27, façam círculos no chão com giz de cor (azul ou verde), acendam velas com cheiro a patchouli e adorem o seu Mestre. Assim como é possível haver jovens de 20 anos viúvos.

Pergunto também a essas pessoas o contrário: se eu usasse só branco, o que seria? Médico? Papa? Hare krishna?

Houve um sujeito que me perguntou se eu era gótico. Respondi-lhe que não. E ele disse-me que eu tinha de ser por causa da roupa.

Ora, que perguntem é uma coisa, que digam, que insistam, é outra completamente diferente. Críticas à minha indumentária vindas dum sujeito com sapatinhos de vela, calça preta vincada e camisinha branca passadinha a ferro levaram-me a colocar-lhe a seguinte questão:

– Diz-me, quando vais na rua é hábito ouvires as pessoas dizerem“É uma bica cheia e uma água com gás.” Ou “Quando puder traga um pires de tremoços.”?

– Não… Porquê?

– Porque com essa roupa, tens de ser um empregado de restaurante.

E dos rascas, acrescentei.

Os amigos dele riram-se e ele ficou envergonhado. Azar. É para aprender.

Esta história foi a piadinha do gótico. Já de seguida revelo-vos por que razão optei por usar apenas preto: disfarça o sangue.

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