ângulo #27: O DIVINO RIDÍCULO

Como ateu que sou, não raras vezes me deparo com um curioso paradoxo: por um lado não acredito na existência de Deus, por outro a sua existência é algo que me dá jeito. Não para atender a algum pedido que faça, mas para efeitos de gozo. Sim, é herege, mas quem começou foi ele. Já a contei antes, mas partilho-a mais uma vez: a minha descrença em Deus começou quando tinha nove anos, mais precisamente quando não recebi um conjunto da Lego que eu queria mesmo ter. Esta falha cometida por esse auto-designado “todo-poderoso” – Todo-Poderoso, para mim, só o do Dragon Ball – ensinou-me tudo o que precisava saber sobre a sua omnipotência. Alguém capaz de criar o Universo não é capaz de arranjar um conjunto da Lego? Tenham dó!

Apesar de tudo isso, considero-me uma pessoa com grande abertura religiosa, no sentido em que tento gozar com todas as religiões por igual. Só não desenho Maomé porque não tenho mesmo jeito para o desenho e qualquer gatafunho que eu fizesse seria logo tomado como ofensa. Mesmo que não fosse uma imagem do profeta. Qualquer desenho feito por mim seria considerado um insulto.

Por enquadramento social costumo gozar mais com a Igreja Católica e seus sucedâneos – afinal de contas, vivemos num Estado quasi-laico – do que com outras religiões, seitas e cultos que possuem menor divulgação no nosso país. Hoje, tentarei colmatar essa lacuna troçando dos cientologistas.

A cientologia é um culto fundado nos anos 50 do século XX pelo autor de ficção científica L. Ron Hubbard. O género literário associado a Hubbard exerce uma forte influência na concepção da sua crença. Vá lá que ele gostava de ficção científica. Apesar de ser estranho receber uma hóstia do esfíncter de um E.T., nem quero imaginar como seria esta crença se Hubbard escrevesse histórias de amor para anormais, perdão paranormais.

Segundo a doutrina, há 75 milhões de anos, mais coisa menos coisa, vários planetas reuniram-se para uma patuscada. Nesse tempo, os planetas tinham uma vida social mais activa e todos os fins de rotação havia uma almoçarada na galáxia de alguém. O grande dinamizador desses eventos era o terrível Xenu, sujeito que todos diziam ter um péssimo feitio, mas que era apenas um incompreendido, e que fazia um churrasco que era uma categoria.

Há um dia em que está toda a gente a comer e a beber, tudo na boa, e vai o Xenu e diz: “Ah e tal, isto está assim um bocado para o cheio. Se calhar o melhor era dizimarmos um biliãozinho ou outro.”

E diz o Tó: “Eh pá! Isso agora vai dar uma trabalheira…”

E o Xenu: “Népias, puto! Põe-se a malta numa nave, das boas, manda-se os gajos para a Terra, que aquilo lá é zona nova ,’tá tudo arranjadinho, e atira-se com eles pra dentro de um vulcão.”

E o Tó: “Mas olha lá, ó Xenu, não ficava mais barato atirarmos com o pessoal para um vulcão dos nossos?”

E o Xenu: “Não sejas semítico, pá! És cá um agarrado ao dinheiro, que nem te conto!”

Os escolhidos são então enfiados num aero-bus que faz o percurso Saturno-Terra, só que nesse dia há greve e têm de ir em transporte alternativo, tudo encafuado uns nos outros. O que vale é que aquilo é tudo malta amiga e, mesmo que não fosse, é para abater, por isso que se lixe! Chegam à Terra e são despejados para dentro de um vulcão. Temendo que isso não seja suficiente para os matar, ainda levam com umas bombas de hidrogénio em cima. Pode parecer exagero, mas não há nada como ter a certeza.

A malta morre e os seus espíritos são recapturados e reunidos em cachos, tipo bananas ou uvas, aos quais se dá o nome de tetões. Estes tetões, segundo dizem, são os seres humanos e foi assim que nós surgimos. Parece uma história ridícula, porém faz todo o sentido; em especial na parte em que declara que alguns humanos são uns autênticos bananas. Já em relação aos tetões, é preciso esclarecer o seguinte: tetões são mamas grandes e não humanos. A associação entre tetão-humano e tetão-mamas grandes poderá dever-se a um erro técnico de tradução que se perpetuou ao longo do tempo. No entanto, não deixa de ser verdade que aquilo que muitos humanos mais querem é mamas, de preferência grandes.

Termino por aqui. Há muito mais a escrever sobre a cientologia e só não o faço porque não vale a pena. Exceptuando um detalhe ou outro, o que eu escrevi aqui não difere muito da versão oficial; o que me entristece bastante. De que vale a pena fazer pouco de algo que já é uma autêntica anedota?

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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