off-date #10: MAIS TELEVISÃO, MENOS VIDA

De acordo com um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, publicado há já algum tempo, concluiu-se que uma hora em frente à televisão equivale a menos 22 minutos de vida. A minha análise a esta conclusão, embora se aparente tardia, não vem desprovida de pertinência como depressa irão verificar.

O estudo afirma que ver televisão é tão perigoso para a saúde como não fazer exercício, o tabaco e a obesidade. Outra coisa que também é perigosa para a saúde: a morte. A morte, ninguém fala disto, dá cabo da saúde de qualquer um. É uma matéria que, mais uma vez, ficou por apurar. Concentremo-nos, por isso, naquilo que foram as conclusões deste estudo.

Para começar, é errado que uma hora em frente à televisão nos roube apenas 22 minutos de vida. A avaliar pela qualidade dos programas que passam nos canais portugueses, o tempo de vida que nos é roubado equivale à duração total do programa, mais publicidade, mais as horas que passamos a tentar esquecer aquilo que acabámos de ver. Essa é a primeira.

A outra contradição encontrada na conclusão deste estudo, que pretende ser científico, viola, precisamente, todo e qualquer rigor científico ao especificar que a pessoa que veja uma hora de televisão terá menos 22 minutos de vida. Como é que sabem isso? Recorrendo à Astrologia?

O telespectador vai morrer 22 minutos antes do tempo. Quem é que pode dizer quando é suposto alguém morrer? Suponhamos que o destino de alguém é morrer num acidente de viação às 7h23. Mas nesse dia sentiu-se mal e ficou em casa a ver televisão. Na prática, essa pessoa não vai morrer 22 minutos antes do tempo, vai morrer algumas horas depois do que suposto.

E a relação ver televisão-menos tempo de vida, apesar de correcta do ponto de vista simbólico, tem outra lacuna. Há pessoas que nunca viram televisão e que morrem quando têm de morrer, seja poucos minutos depois de nascer, seja aos 110 anos.

Que ver televisão durante longos períodos de tempo aumente o risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais, é uma coisa. (Aliás, se acender a sua televisão neste momento num qualquer canal generalista e ver alguns minutos do programa que estiver a passar, é fácil dizer que muito AVC já aconteceu naquelas cabecinhas.) Outra, completamente diferente, é dizer que ver televisão nos rouba tempo de vida no futuro. Errado. O que rouba é o presente e esse ninguém o devolve.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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