off-date #9: O RECURSO AO CANIBALISMO

Eu sou alguém que admira muito o esforço alheio. Principalmente quando este é canalizado para a concretização de objectivos nobres. Susanne Eman, uma americana de 33 anos, pesa 320 quilos e tem como objectivo de vida chegar aos 730 quilos e tornar-se assim a mulher mais gorda do Mundo. É bonito e inspirador um empenho deste calibre. Seria muito mais fácil, e menos dispendioso, ser a mulher que mais peso perdeu em menos tempo – bastaria ficar alguns meses sem consumir as suas 20 mil calorias diárias –, mas o facilitismo não se coaduna com a nobreza de carácter de Susanne.

A gordita (não é ofensivo chamar gordo a alguém que pesa quase meia tonelada) diz que começou a atrair mais homens justamente quando começou a engordar. Eu quero acreditar que a maioria desses homens se aproximou de Susanne, encantados pelo seu carácter, pela força das suas convicções, pela sua determinação, mas temo que muitos tenham sido levados pelo estômago. Susanne Eman, não há como contornar isto, parece uma porca. Pode ser uma pessoa muito simpática, muito determinada, mas fisicamente é um petisco para qualquer canibal.

O que me leva a pensar no seguinte: o que motiva estas pessoas a atingir e a quebrar recordes de obesidade? Ou melhor, quem é que foi o iluminado que disse “Quem pesar mais que este gordo aqui vai ser o campeão?” É provável que haja nobreza no acto de engordar da parte de Susanne, mas seria esse acto tão nobre ou tão levado a sério se não houvesse esse patamar a atingir, sem essa lógica competitiva por trás?

Ao tomar conhecimento da história de Susanne, e enquanto escrevia este artigo, dei por mim a pensar nisso e cheguei a uma conclusão. Diria mesmo a uma solução.

Certamente que haverão muitos que repudiarão o esforço de Susanne, e aqueles concursos de enfardar hamburguers e cachorros e qualquer competição que se preste ao aumento da obesidade. Dirão essas pessoas que é imoral, errado, ou mesmo criminoso, aplaudir-se este consumo excessivo de comida quando há milhares, milhões, de pessoas a passar fome em todo o mundo.

A ideia que me ocorreu acabaria com um de dois problemas, senão mesmo com ambos, e consiste em: recorrer ao canibalismo. Inspirado na história de João e Maria (Hänsel e Gretel, no original), pegava-se nos seleccionados (e nos não seleccionados também) dos Ídolos e dava-se aos seleccionados do Peso Pesado para eles ficarem bem rechonchudinhos. No final, recebiam uma taça, uma semana de férias em Adis Abeba. Aliás, em vez de  usar só os seleccionados, é melhor colocar os não-seleccionados também e assim mata-se logo a fome no mundo.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Linha Corrente, off-dates. ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s