postigo #22: O ALÍVIO DA PRIVAÇÃO

Conta-se que em tempos viveu um rico senhor, ou um senhor rico, que tinha um cavalo, fiel companheiro de muitas batalhas. Como as batalhas iam sendo coisa do passado, o dono do cavalo decidiu adquirir algumas ovelhas e dedicar-se à produção de lã. Quanto ao cavalo, embora fiel e bom para dar alguns passeios, já não tinha a mesma utilidade de outros tempos. Comia, pastava e dormia. Era mais despesa que lucro. Contudo, nem pensar em se livrar dele.

Após muito pensar, o homem saiu-se com um plano, no seu entender, bastante engenhoso. Iria atrasar o horário das refeições meia hora cada dia. O cavalo não pareceu reparar no ajuste e o homem, satisfeito com esse resultado, continuou até que a segunda e a terceira refeição passaram a ser uma só. Ensinara o cavalo a comer menos, o que reduziria bastante as suas despesas de alimentação com o animal.

Mas eis que o tempo de paz termina e regressa a época das batalhas. O homem pega no cavalo, pronto para pelejar, mas este não tem força. É uma sombra do animal que fora. Mal entra em acção, tomba por lado, vitimado por inanição. O homem aproxima-se do cavalo tombado e abana a cabeça, lamentando o seu azar. Logo agora que ensinara o cavalo a comer menos.

Lembrei-me desta história hoje enquanto tomava o pequeno-almoço. Nem a propósito. Durante o desjejum, assistia aos serviços noticiosos dos vários canais, procurando evitar a publicidade e o desporto, e reparei numa manchete comum a todos os jornais diários (com excepção dos desportivos, claro está): o governo pretende cortar 10% no subsídio de desemprego e 2,25% no complemento social para idosos, entre outros cortes. Suponho que a ideia seja ir fazendo reduções, mais ou menos substanciais (não muito depressa senão o cidadão não tempo para se habituar), até que seja fácil uma pessoa sobreviver sem ter de se preocupar com dinheiro.

Este projecto do governo, à falta de melhor termo para o definir, parece idiota mas não é. É perfeitamente possível uma pessoa sobreviver sem ter de se preocupar com dinheiro. Uma das hipóteses é tê-lo em abundância. Quando se tem dinheiro em abundância, em quantidades tão grandes que parece quase infinito, é possível não se preocupar com a falta dele. Ironicamente, não é isso que costuma acontecer. As pessoas com mais dinheiro, apesar de menos preocupados com os custos da vida diária, têm mais receio de perder o que têm do que aqueles que quase nada possuem.

Ter dinheiro – muito dinheiro, melhor dizendo, gera muita preocupação e o governo deve estar convencido que o rigoroso oposto faz melhor ao espírito. Muito dinheiro, muita preocupação, logo: pouco dinheiro, pouca preocupação.

Nao obstante esta lógica maniqueísta do governo, este corte nos apoios sociais é mais uma de muitas medidas polémicas previstas no Orçamento de Estado para 2013. O ano, mais um, da austeridade. Vivemos tempos negros e não se avistam melhores dias. Pelo menos, por cá.

Outra notícia que fazia manchete em alguns jornais de hoje: Portugal tem a segunda maior reserva de ouro do mundo. Se ao menos esse ouro valesse alguma coisa…

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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