ângulo #23: SAÚDE PARA TODOS… OU QUASE

O polémico parecer divulgado pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, em que este recomenda o racionamento de medicamentos para certo tipo de doentes, só é polémico se quisermos encarar esta questão como meninos. Como homens (adultos, entenda-se), este assumir de uma saúde para ricos e outra para pobres é algo que há muito que estava em falta. Infelizmente, apesar de darem um passo significativo no sentido de assumir uma posição clara, os senhores do CNECV parece que continuam com medo de assumir essa posição em pleno. É como alguém gabar-se de comer a mulher do patrão, ao mesmo tempo que teme que toda a gente fique a saber.

Neste caso, o CNECV estipula que a diferença de acesso aos medicamentos não é feita com base no rendimento de cada um, mas sim no seu estado de saúde. Exemplo: uma pessoa com trinta milhões no banco, perdão, trinta anos de vida, precisa de mais cuidados do que alguém com apenas quinhentos euros, perdão, cinco semanas. Eu, ao contrário de muita gente, não desaprovo de uma saúde para ricos e outra para pobres. As coisas têm funcionado bem assim até agora – tirando uma ou outra morte, mas também quem não morre, não é verdade? – e não há razão para nos pormos com grandes mexidas.

Esta minha posição parece polémica e poderá indicar que estou do lado daqueles que, em caso de necessidade, terão a vida mais facilitada. Enganam-se. Eu defendo uma saúde para ricos e outra para pobres, não por ser rico (que não sou), mas porque prefiro que me digam logo na cara como é que é em vez de se porem com engodos. Não preciso que me digam que padeço de uma maleita incurável, que o tratamento é muito agressivo, que o melhor é dar tempo ao tempo, que estão a ser estudadas novas terapêuticas, novos farmácos, basta apenas que me digam: “Temos pena, mas há um senhor no quarto ao lado, com uma conta bancária mais recheada, que precisa de viver mais do que você.” Seria mais ético.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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2 respostas a ângulo #23: SAÚDE PARA TODOS… OU QUASE

  1. R.A. diz:

    O Parecer n.º 64/CNECV/2012 não recomenda racionamento nem aponta a idade ou a riqueza como fator de decisão na compra de medicamentos. Leia-o em http://www.cnecv.pt sem preconceitos e verá!

    • Agradeço o comentário, do qual estava ciente. Apenas adulterei a informação para fins de comicidade. Não pretendo ser um veículo do rigor e da credibilidade. Pelo menos, não nestes ÂNGULOS. Já na categoria POSTIGOS, procuro ser o mais sério e rigoroso possível. Faço-lhe o convite para ir lá espreitar.

      Cumprimentos,
      Joel G. Gomes

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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