postigo #21: ENSINO DO PASSADO

Em Campo Maior, cerca de 600 alunos começaram o ano lectivo a ter aulas em contentores. A notícia não é de agora, tem já alguns meses, e também não é, para mal de muitos alunos, o pior que se passa com o ensino em Portugal, mas traz-me à memória histórias de outros tempos.

Durante o biénio 2010-2011, período em que se assinalou o Centenário da Implantação da República em Portugal, fiz parte de uma exposição itinerante que percorreu o país ensinando e relembrando como era a vida durante a I República. Mais que enumerar datas, procurava-se estabelecer paralelos entre situações de há 100 anos e o seu equivalente nos dias de hoje. O desporto era sempre um dos mais apreciados, embora fosse habitual um olhar de espanto e incredulidade sempre que falávamos num dos grandes marcos republicanos: as escolas-móveis.

Em abono da verdade, convém dizer que as escolas-móveis não foram uma criação republicana, como muitos julgam, mas antes um aproveitamento de algo que já existia. Em 1882, o republicano Casimiro Freire, numa iniciativa particular, lançara um projecto que visava levar o ensino do Método João de Deus às zonas mais recônditas do país. Entre 1882 e 1897 foram formados 2004 em 5797 inscritos. Mais tarde, já com a República implantada, o Estado investiu neste projecto que qualificou cerca de 100 000 indivíduos, homens e mulheres, em 200 000 frequentadores, até à sua extinção em 1930.

Várias críticas foram feitas na época ao modo como as aulas eram processadas, à falta de preparação dos professores e à heterogeneidade etárias das turmas que, em alguns casos, misturava crianças e adultos. Nada que não se continue a ouvir nos dias de hoje.

Apesar do esforço, a  reforma educativa que os republicanos queriam levar a cabo ficaria pelo caminho. Além das escolas-móveis, o Estado procurou ampliar a rede escolar primária a todo o país, todavia, principalmente nas regiões do interior, continuaram a existir muitas zonas sem escola, fosse ela fixa ou móvel.

A mobilidade do ensino possibilitava a deslocação do mesmo para outras paragens. As aulas não eram coisa diária, mas sim algo que dependia da rota que cada escola realizava. Eram tempos instáveis, embora não menos instáveis do que aqueles que agora vivemos. As diferenças são mais que muitas e, tal como as semelhanças, ajudam-nos a pensar no que foi o passado e no que queremos que seja o futuro.

Em tempos de austeridade ouve-se falar muito no regresso à dureza de outros tempos. Os mais velhos invocam histórias da sua juventude – uma sardinha para três – procurando demonstrar que “antigamente é que era difícil”. Sim, antigamente era difícil, só que hoje as coisas também não estão fáceis.

O passado nunca sai de moda, antes reformula-se e reforma-se. Em Campo Maior, há 600 alunos a ter aulas em contentores; em 1916, as aulas funcionavam em carroças. O que é pior? Há 100 anos atrás é provável que que muitos preferissem a estabilidade e o conforto dum contentor. Hoje em dia, a possibilidade de deslocação é algo que aliciaria, na medida em que tornaria mais fácil partir para paragens mais atractivas.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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