ângulo #22: DESEMPREGABILIDADE FUNDAMENTADA

Um despacho publicado na página da internet da Direcção-Geral de Ensino Superior estipula que «sempre que uma instituição pretenda aumentar o número de um par instituição/ciclo de estudos, deve demonstrar, fundamentadamente, que o nível de desemprego nesse par é inferior ao nível geral de desempregados dos diplomados com um curso superior».

Eu oiço os senhores da FNE e da FENPROF e outros a reclamarem de tudo o que o ministro Nuno Crato diz e faz, mas não ouvi uma palavra de apreço por uma salutar demonstração de bom humor como esta. Deixar que uma instituição determine se prefere ter mais ou menos alunos inscritos a pagar 300 euros ou mais por mês é o mesmo que deixar a EDP e a Galp controlar os sectores da electricidade e do combustível. Agradeçamos por ainda não se terem lembrado dessa, senão estaríamos bem lixados.

Para que tudo seja feito nos conformes, ou pelo menos com a aparência disso, foi criada uma fórmula que se serve dos números da Direcção-Geral da Estatística e Ciência respeitantes aos desempregados por curso inscritos nos Centros de Emprego.

Logo à partida, percebe-se o humor refinado dos ministeriados cratenses. Espera-se que seja humor refinado e não o que deve ser de facto: gozar com a nossa (nossa: docentes e alunos) cara. Como se alguma vez nos Centros de Emprego, as pessoas estivessem separadas por curso. Pela minha experiência, de todas as vezes que fui chamado, o único critério aplicado foi ter mais de 18 anos e respirar. A separação por áreas e qualificações é feita no local porque é mais barato gastar balúrdios em papel, tinteiros, envelopes e selos a contactar pessoas a quem as ofertas de emprego, mesmo que interessem, estão vedadas por falta de qualificações, do que contactar apenas quem pode fazer uso delas. Se fosse uma pessoa mais desconfiada, diria que encostar pessoas à parede com escolhas viciadas como esta é uma forma desonesta e vil de obrigá-las a abdicarem de algum parco subsídio que recebam. Mas não sou.

Voltando ao despacho, outra nota engraçada é sugerir-se uma redução nos cursos de professor do ensino básico e de educador de infância não inferior a vinte por cento. Acho especialmente boa e útil a redução do número de professores do ensino básico porque toda a gente sabe que essa é a melhor forma de preparar alunos. Posso contar um caso particular que aconteceu no meu 11º ano, em que era suposto cada aluno elaborar um dossier temático sobre qualquer coisa; nós éramos à volta de trinta, foram apresentados dois ou três trabalhos e toda a gente levou nota positiva. Há que dizer que professor em questão era um pouco distraído. Ou se calhar até não era e decidiu fazer de conta que se estava a deixar enganar só para ter menos trabalho.

Recomenda-se também às instituições que «redistribuam» as vagas disponíveis para incrementar o número de alunos nos cursos de «Ciência, Matemática, Informática e Engenharia». Vá lá que o Nuno não é de Ciências Documentais, senão ia tudo estudar paleografia que até andava nas horas.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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