ângulo #20: DESMEMBRAMENTO DISCIPLINAR

No meu tempo de escola, fui aluno de EV (Educação Visual), mas havia quem tivesse ET (Educação Tecnológica); os meus irmãos, por sua vez, tiveram EVT (Educação Visual e Tecnológica). Agora parece que voltámos a ter EV e ET em separado. É uma forma, entre tantas outras, de garantir colocação a todos os professores (todos, quanto possível), tal como prometeu o ministro Nuno Crato. Qual é o problema? O problema é que estas “novas” disciplinas não têm programa. Ou melhor, têm meio programa. E o que é que o ministro da Educação e Ciência diz sobre isto? Diz o seguinte: “Tal como anteriormente os professores farão a separação de conteúdos e de actividades de EV e de ET a partir das orientações curriculares publicadas”. Ou seja, é uma questão de fazer as coisas com calma.

Não sei se esta separação disciplinar se aplicará noutras disciplinas. Talvez venhamos a ter Física e Química separadas (no meu tempo eram juntas, agora não sei), assim como Educação Moral e Educação Religiosa (também separadas), o que ainda não sei se é boa ideia ou não. No caso de EVT, perdão, de EV e de ET, aplaudo a iniciativa com entusiasmo.

É verdade que isto vai aumentar a carga horária dos alunos, mas não olhemos só para o lado mau (mau para eles, não para os professores e muito menos para os pais que conseguem mais algum tempo de sossego), pensemos em todos os aspectos positivos que isto proporciona. Em primeiro lugar, o professor terá muito mais tempo para explicar a matéria – cerca do dobro do tempo –, ou seja, as possibilidades de bom aproveitamento aumentam sem que haja necessidade de trabalhar os números. Quando tiverem de desenhar uma árvore ou construir um motor, os alunos terão tempo para desenhar uma árvore perfeita, tão perfeita que até dará frutos quando terminada, e de construir o motor mais potente e eficaz de sempre. O sempiterno dilema do moto-contínuo deixará de existir.

Acima de tudo, estou a pensar no descanso que isto também significará para os alunos. Sim, terão mais tempo de aulas, como já se percebeu, mas terão também mais tempo para pensar nas coisas, para reflectir sobre significantes e significados. O mesmo acontecerá com os professores. Terão mais tempo para explicar a matéria e mais tempo para se desesperarem com aqueles alunos que continuarem a não conseguir achar o raio da circunferência.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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