ângulo 19: TURISMO E CLAREZA DE LINGUAGEM

Nesta dita época de crise foi interessante ver que os portugueses não se demoveram de ir passar férias para o Algarve. Nem mesmo o risco, sempre presente, de se cruzarem com o Zezé Camarinha os convenceu a irem veranear para outras paragens. Os números apontam que o total de vendas e reservas registado em agências de viagem apresentou um valor correspondente a 96% do mesmo período do ano passado. Já no que toca ao guito em si, a coisa não esteve fácil. De modo a atrair turistas, os senhores da indústria hoteleira tiveram de baixar os preços até estes ficarem apenas bastante superiores ao que um cidadão português mediano pode suportar.

O termo mediano, aliás,poderá ter sido o grande responsável pelos preços que se praticavam antes. Digo isto pela associação de mediano com média e com a ideia perpassada por certos seres que auferem módicas (leia-se aqui uma asneira à escolha do leitor) quantias de balúrdios de que cada português ganha uma média de 1600€ por mês. É o que dizem os números, e era bom que assim fosse, mas não é. Note-se que os números também dizem que para cada homem existem sete mulheres e meia. Eu já consegui oito, mas nenhuma delas aceita ser cortada ou meio; eu bem que insisti, mas elas são teimosas. A minha única hipótese – não queria, mas vai ter de ser – é mandar uma delas embora e e escolher uma anã ou uma criança. Uma criança anã não, senão fico só com sete mulheres e um quarto.

O que me leva ao assunto principal: a pedofilia no turismo. Não falo daquela dissimulada praticada na Tailândia e outros países, entre os quais o nosso, mas daquela que é apregoada sem qualquer tipo de inibição. Quantos de nós já não vimos um anúncio igual ou parecido com este: «Porto Santo = 2 Noites + Criança grátis»? Até em restaurantes eu já vi promoções como esta: «2 Adultos = 20€ + Criança grátis».

Eu sei que poderá parecer que estou a brincar com as palavras, porém, as mesmas palavras que servem para a palhaçada, também servem para assuntos sérios: tudo depende da interpretação que lhe damos. Exemplo: aqui há tempos passei numa livraria e escolhi um livro que oferecia um desconto de 5€ em compras de valor igual ou superior a 20€. Escolhi outro livro e quando me dirigi à caixa para fazer o pagamento a funcionária disse-me que o desconto só se aplicava a livros daquela editora, que estavam devidamente identificados, sublinhou. Certo, só que não era isso que as palavras diziam. Eu podia interpretar uma coisa, ela interpretava aquilo que lhe haviam dito para interpretar. No final, ganhei eu porque sou mais giro.

Onde é que eu quero chegar com isto? Eu não estou a dizer que existem agências de viagem que são coniventes com a exploração de menores. Não estou mesmo. Para fins jurídicos e processuais, sublinho que não estou. O que eu acho que elas estão a fazer é testar a nossa atenção. Querem ver até que ponto nós não ligamos ao que está lá escarrapachado para depois nos entalarem. É o mesmo princípio das letrinhas pequeninas dos contratos, só que em maior. A expressão «criança grátis» tanto pode significar oferta de uma criança, caso o viajane ou viajantes tenham essa preferência, como oferta da viagem para uma criança. Regra geral, pratica-se mais a última do que a primeira, só que a hipótese está lá e não pode ser ignorada. Tal como já escrevi há pouco: é uma questão de interpretação.

Consideremos os seguintes exemplos:

«Banguecoque. 350€. Uma semana = Inclui visita a prisão»

«Tenerife = Um fim de semana, 200€ em hotel 5 estrelas. Abate de 25% por casal».

O primeiro exemplo indica que temos direito a visita a prisão. Será visitarmos prisão ou sermos visitados na prisão? Não especifica. Nós queremos acreditar que é o primeiro porque é aquele que dá mais jeito e também o que aleija menos (quem viu o “O Expresso da Meia-Noite” sabe que aquilo lá não é fácil).

O mesmo sentimento de ilusão acontece no segundo exemplo: um abate de 25% no casal significa um desconto de 25%, certo? Não necessariamente. Abate pode mesmo significar abate; seja ele abater um membro (braço ou perna) de cada um ou deixar um deles sem braços ou sem pernas. Ainda assim, para a promoção que é, até acho que compensa. Se calhar, se arranjar uma anã até lá, levo-a comigo. Pode ser que tenha logo direito ao desconto por se tratar de uma menor.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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