postigo #17: PRAXIS

Encontro-me neste momento no pátio de uma universidade em Lisboa. À minha volta, alunos recém-chegados, devidamente identificados com maquilhagem fluorescente e laços feitos a partir de papel higiénico, seguem as instruções dadas por veteranos, possíveis futuros trabalhadores, vestidos de modo igual, distinguíveis apenas pelos ornamentos que ostentam nas suas capas. Há gritos e euforia e reptos e urros, porque sim. Pode haver quem cante ou salte por genuína alegria e vontade; muito deles, a maior parte porventura, fá-lo porque a isso é obrigada. O rito da inclusão tem o seu quê de deprimente, mas também de essencial. No fundo, é como uma tropa dentro da tropa: quem não vai não pode dizer como é, nem pode esperar conseguir o mesmo tipo de relação com os colegas que foram.

Esta euforia, esta camaradagem, perdurará nos primeiros dias e diluir-se-á ao longo do ano. O calouro terá o seu padrinho ou madrinha, numa relação que é tudo menos simbiótica. Depois começarão as aulas. Quase que acrescentaria a sério, não fosse um artigo lido há dias sobre o actual estado das universidades portuguesas, onde me deparei com uma opinião de Miguel Soares. De acordo com a opinião daquele que é o investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência em Portugal, «as universidades portuguesas prestam uma formação de baixo nível aos alunos» e estes «quando terminam os seus cursos apresentam falta de competitividade e de excelência». Gostaria de dizer que não é bem assim, só que – não querendo tomar o bom pelo mau – a verdade é que não posso. Não precisava de conhecer as universidades por dentro, como conheço, para dizer isto. E se é fácil registar que o problema existe, já apontar culpados ou possíveis soluções é algo que se afigura quase impossível.

Haverá culpados verificáveis nisto ou está a culpa tão distribuída, tão diluída, que se torna quase inexistente? Podemos dizer que a culpa é dos alunos, pouco habituados à exigência, ao trabalho e à disciplina; podemos dizer que a culpa é dos professores, convidados por afinidade, por estatuto e por nome, inclinados a facilitar a avaliação porque o desempenho dos alunos espelha o seu próprio mérito enquanto docentes; podemos culpar as universidades que impõem sanções (tão indirectas quanto possível) aos docentes cuja larga percentagem de alunos tem maus resultados na cadeira que leccionam (um aluno que chumba e vai a exame significa mais dinheiro para a instituição, demasiados alunos a ir por essa via pode ser mau para a sua imagem); podemos culpar a sociedade em geral, e os pais em particular, por permitirem, por se iludirem, que jovens que não sabem ler e escrever, pensar ou deduzir, sejam capazes de se sujeitar a um ambiente académico isento de comodidades. Podemos apontar todos estes culpados, e mais outros, só não podemos apontar um único culpado. A culpa, neste caso, e tal como a miséria, adora companhia.

Os alunos que à minha volta agora saltam e os alunos que os mandam saltar, daqui por uns anos entrarão no mercado de trabalho. Alguns qualificados, outros suportados, outros iludidos de que o canudo substitui o conhecimento e a preparação que não adquiriram nos anos anteriores. E se é verdade que o canudo pode servir de muleta metafórica, como muleta real não passa de uma ilusão.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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