ângulo 18: O NOVO FIZZ

Acho revoltante quando o desrespeito pelas instituições mais sagradas da vida e da cultura portuguesas é tão evidente que deixa de ser desrespeito e passa a ser quase norma. Acho também revoltante ter começado este artigo com uma frase tão longa e tão sem graça e por esse facto vou admoestar-me. Vou também admoestar-me pela segunda frase; se calhar com menos força devido à inclusão do verbo admoestar. Bom, se calhar o melhor é parar com isto e ir directo ao cerne do assunto em questão antes que fique todo negro. E também antes que o objecto do assunto desapareça. Palpita-me que não há de tardar muito para que isso aconteça.

Caros leitores (os mais distraídos, os outros já terão percebido sobre que objecto trata este artigo), o tema que vos trago hoje é o novo Fizz. Italizo o adjectivo novo porque, ainda que o Fizz que se vende nos dias de hoje possa ser o mesmo Fizz que comíamos em crianças, a verdade é que não é. O Fizz que comíamos em crianças, além de vir em escudos, tinha mais do que 65 kcal e continha (mesmo que não o apregoasse) corantes e aromas artificiais. E daí talvez não. De qualquer modo, não dizendo se tinha ou não, cada um podia sonhar à sua vontade: os pais julgando que aquilo levava limão genuíno, nós acreditando que sorver aquilo era tão saudável como fazer uma hemodiálise com Tang.

O Fizz de hoje, seguindo aquela política deprimente de que os gelados querem-se sem substâncias artificiais é uma coisa sem graça. Gustativamente, parece saber ao mesmo, embora isso possa ser só impressão minha. Longe vão os tempos em que comi o meu último Fizz dos antigos, por isso só posso estabelecer comparações com base em memórias que o tempo se encarregou de dissipar. Posso, no entanto, afirmar, que mesmo que a receita se mantenha exactamente igual, o novo não toca nos calcanhares do antigo. Não digo isto por conservadorismo; sou apenas alguém que acredita que quando algo começa a tentar entrar em campos que o descaracteriza, perde a sua essência, a sua razão de ser. O Fizz e outros gelados não existem como complementos ou substitutos de fruta e sim como escapes a isso. Sim, são mais saudáveis que certas substâncias, e ainda bem, mas por favor não os tornem saudáveis demais. Um pouco de químicos nunca fez mal a ninguém.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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