off-date #7: LIBERTAÇÃO VERNACULAR

Enquanto não dou por oficialmente encerrado o meu período de descanso, quero partilhar convosco uma descoberta que fiz numa visita recente a uma estação de rádio (não vou dizer qual). Trata-se da transcrição de um programa de rádio que nunca chegou a ser emitido. Optei por fazer uma transcrição, ao invés de publicar aqui um ficheiro de som, porque a fita estava quase imperceptível em algumas partes. As minhas desculpas ao autor do texto por alguma palavra mal transcrita. Quanto à recusa em avançar com o programa, tenho as minhas suspeitas quanto ao que terá estado na base dessa decisão, mas vou guardar a minha opinião para o fim de modo a não vos influenciar.

O título menciona a componente vernacular do texto que se segue, mas vou reforçá-la para não dizerem que não vos avisei.

«MAGASINE – PROGRAMA PILOTO
 
Alô, alô, bem vindos à terc- Espera lá… é terceira ou quarta?
(…)
Onde é que eu pus a merda das folhas?
(…)
Foooda-se. Ó cum caralho que eu já me ’tou a passar com esta merda! ‘da-se!
(…)
Cá estão elas! Suas pu-! Hã? Ó cona da mãe ainda é só a primeira edição. Foda-se! Esqueci-me de dizer o nome da merda do programa. Ó cona da mãe! É melhor de começar de novo, ó caralho.
(…)
Bem vindos ao programa Magasine com S. Porquê com S? Porque eu quero, foda-se! Ai o caralho! Mas quem é que ’tá a fazer o programa, hã? Bom! Vamos lá a ver! Querem ver que há aqui molho?
Só um segundo enquanto eu desaperto o cinto…
Cona da mãe! Já tenho a merda das cuecas todas borradas ó caralho… Pronto! Pronto! Já me foderam esta merda toda! Ó puta que pariu! Agora vou ter de chegar a casa e vestir as cuecas de quinta-feira. Cuecas de quinta-feira a uma terça! Caralhos ma fodam mais esta merda toda ó caralho! Fooooda-se!
(…)
O quê? Já temos o nosso primeiro ouvinte em linha? Mas quem é que disse que era para começar a passar as chamadas? Ai o caralho! Eu disse que só era para passar a merda das chamadas quando eu dissesse, foda-se! Eu preciso de me concentrar antes de começar a falar com gente estúpida.
(…)
Passem lá a chamada, foda-se! Já fizeram a asneira, agora não deixem o ouvinte à espera. Mal educados dum caralho…
Está lá?
«Olhe, muito boa tarde, é só para dizer que não estou a gostar nada do seu programa. Acho que o senhor é muito mal educado.»
Ai sou? Então porque é que ligaste, ó puta de merda? Se não gostas do que ’tás a ouvir, vai fazer um broche a um cavalo, foda-se!
«Meu Deus! Nunca fui tão ofendida na minha vida.»
Vai pra cona da tua mãe que lá é que ’tás bem.
(…)
Olha! Desligou-me a chamada na cara. Puta do caralho! Esta gente não sabe ter maneiras!
O que é que vem agora? Mais chamadas? Manda-os pró caralho. Não ’tou com paciência para aturar mais gente estúpida. Agora apetece-me falar de agricultura.
No outro dia comprei uma saca de batata e só as que ‘tavam ao de cima é que ‘tavam boas. As outras ‘tavam todas farinhentas e cheias de raízes. Amanhã vou ter com o filho da puta que me vendeu aquela merda e vou enfiar-lhe as batatas todas pelo rego do cu acima a ver se ele gosta.
E agora um pouco de política internacional.
A Europa está numa crise fodida. ‘Tá despachada a política internacional. Vamos ao desporto.
(…)
Não me apetece falar de desporto. Os cabrões é só mamarem à nossa pala e depois não jogam nada. Vão mas é pra puta que os pariu todos, ó caralho!
Boa tarde.”
Boa tarde? Mas é quem és tu, ó paneleiro? Entra-se assim no estúdio, é? Não vês que estou a conduzir um programa de rádio? Atrasado de merda!
Venho para apresentar a próxima rubrica…”
Ah! Peço imensa desculpa. Com essa cara de atrasado mental nem percebi que eras o meu assistente. E que vais tu apresentar, ó estúpido?
Em primeiro lugar, agradecia que parasse de me ofender.”
Deixa-te lá mas é de paneleirices e apresenta a merda da rubrica antes que eu te parta a cara à chapada! Cona da mãe! Ó cum caralho! Só me saem é duques…
Por acaso o meu nome até é Ricardo Duque.”
Mas alguém te perguntou alguma coisa? É por acaso que te chamas Ricardo Duque ou é porque foi esse o nome que os teus pais te deram? Deve ser por acaso porque foi o primeiro nome que saiu na lista telefónica.
(…)
Agora ’tá a chorar… Ó mas que merda de gentinha esta! Faz-te um homem, caralho!
O senhor não tem o direito…”
Eh pá, cala-te e apresenta a merda da rubrica, foda-se!
(…)
E não pára! Bom, ’tá visto que tenho de ser eu a apresentar a filha da puta da rubrica. Dá cá o papel. O que é que diz aqui? Foda-se! Não tivestes tempo de passar esta merda a computador? Não se percebe nada da tua letra, ó caralho! E o papel ’tá todo ensopado. Parece que andaram a mijar nele…
O que é que diz aqui? Assoa-te, caralho! Não se percebe nada do que ’tás praí a dizer!
É o quê? Uma rubrica de sexualidade para jovens chamada Hora Queca? É suposto isso ter piada? Não me fodas! Uma hora a falar de pitas a foder? Não me fodam! Levam dois minutos e já gozam!
Vamos à rubrica. Pitas, não fodam! Se foderem usem prevenção. Se não usarem, vão-se foder. E ’tá feito.
Fique agora com algumas sugestões da equipa que é responsável por fazer esta merda.
Se deixar cair azeite na roupa, pegue num pano e molhe-o em água quen
Mas que merda de sugestões são estas, ó caralho? Quando eu falei em sugestões eram sugestões de coisas para fazer, filmes, passeios. Não era esta merda. Quem foi o estúpido que propôs isto?
Achei que era uma boa sugestão…”
Eu devia ter calculado que isto só podia ser ideia tua, ó ranhoso dum caralho.
Pronto. Já percebi que não querem que eu continue a fazer a merda do programa. Vou ficar por aqui…. Como? Ainda faltam quarenta e cinco minutos para o programa acabar? Olha, enfia os quarenta e cinco minutos no rabo e acende o pavio.
E é tudo por hoje, caro ouvinte, para a semana cá estaremos de novo. Se calhar. Não sei. Da maneira que esta merda correu hoje não sei se volto. Se ficou ofendido com alguma coisa que ouviu, azar do caralho! Se quiser armar-se em campeão e vir cá ajustar contas, estamos junto aos Correios da freguesia de Santa Cona de Assobio, que fica mesmo na fronteira com Vale Caralho. Adeus e até sempre.
Esqueci-me de dizer os patrocinadores? Eu quero é que os patrocinadores se fodam!»

E esta foi, na minha opinião, a razão pela qual este programa nunca foi emitido: toda a gente sabe que não se ofende os patrocinadores.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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