postigo #16: ATENÇÃO A MAIS

Em alguns casos, não todos, apenas alguns, a falta de atenção, a ignorância, pode ser tão ou mais grave como atenção a mais. Acontece em tudo, ou quase tudo na vida, e a violência doméstica não é excepção. O chamado “crime invisível”, o flagelo social do século XXI, segundo alguns sociólogos, e também um dos mais ignorados. Ou, pelo menos, era.

Durante anos, décadas, hábitos sociais arcaicos, medo, fraca auto-estima, passividade das autoridades, falta de provas, etc., levaram a que o abuso se perpetrasse impune. Mas eis que chegou a liberdade para todos e com ela o desejo de direitos para o indivíduo.

Sofrimento em silêncio. Até que um dia alguém gritou. E esse grito, inesperado, indesejado, foi escutado por alguém, que gritou também em resposta. Os gritos sucederam-se e aquilo que era do conhecimento de todos, mas tratado como assunto privado, passou a matéria de interesse público. A sociedade foi apanhada de surpresa. O marido agressor, a mulher agressora – a violência, tal como a idiotice, não escolhe género – tornaram-se os novos actores sociais. As vítimas não passaram a ter uma voz, porque já a tinham antes, mas passaram a ser escutadas.

E os excessos? O que acontece quando as situações são hiperbolizadas? O que acontece quando uma palmada no rabo, a saudável e pedagógica palmada no rabo, de repente é vista pela sociedade, antes tão passiva, agora tão hiperactiva, como uma agressão doentia?

Saibamos separar as coisas. A violência doméstica é um problema que vai muito além da agressão física. Por vezes, é mesmo a ausência de qualquer contacto físico a mais violenta das agressões.

Olhar com demasiado cuidado para situações sem importância apenas desvia a atenção do que realmente importa. Entremos na casa de um casal português para espreitar uma situação da sua vida conjugal:

Ana e Pedro estão em casa; discutem sobre gastos excessivos ou sobre as notas do filho ou sobre a comida ou qualquer coisa. Este casal tem um óptima relação; não sendo avessos a desentendimentos, estes nunca resvalaram para a violência física. Ainda são um casal apaixonado, tanto ou mais como no momento em que se casaram, mas não são imunes ao meio onde estão inseridos.

Pedro está desempregado e Ana tem de sustentar sozinha toda a família. A discussão sobe de tom, os ânimos exaltam-se e uma mão, não importa de quem, atinge um rosto, também não importa de quem, desprevenido.

Será correcto rotular esta situação como violência doméstica? É um acto de violência, sem dúvida, e passa-se dentro de casa, mas será isso suficiente? Este incidente isolado cujo desfecho, embora indesejado, é algo que provém do momento deixará marcas, porque ficam sempre marcas, mas será isto um exemplo de violência doméstica? Não me parece. Um cônjuge que apresente queixa por violência doméstica devido a uma isolada chapada na cara está “apenas” a troçar daqueles e daquelas que sofrem a sério.

É verdade que as grandes consequências advêm das pequenas acções, tal como ignorar o poderá vir a constituir um problema. Mas será que constituirá mesmo? Sim, ignorar é perigoso. E quão perigoso será tratar com exagerado cuidado o problema? Quão danoso, quão violento para a própria “vitima”, será deixar-se consumir pela ansiedade da possível repetição? A antecipação da dor é mais poderosa do que a dor em si. Assusta mais. Assusta mais porque há demasiada gente a gritar e demasiada gente a escutar. O problema é que alguns gritam sem razão e os que escutam, não sabem o que escutam. Se calhar um pouco de silêncio, um pouco de bom senso, ajudaria aqueles que, de facto, precisam.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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