ângulo #16: FILHOS DEVEM EDUCAR OS PAIS

Fernando Pinto, presidente da Comissão Organizadora do Congresso Português de Hipertensão e sócio nº 3245878 do Clube Amigos da Bifana, defendeu que devem ser as crianças a educar os pais no sentido de adoptarem hábitos alimentares saudáveis que reduzam os riscos de doenças cardiovasculares. É um conselho na óptica do “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, mas ao contrário. É um pouco como o Governo dizer: “A generalidade dos portuguses procederia melhor se demonstrasse uma postura mais ímpia e isenta de mácula.”

Mas… desenganem-se aqueles que já teceram ou preparam-se para tecer comentários jocosos, quiçá difamatórios, à proposta de Fernando Pinto. Ignore-se o facto de as crianças comerem o que os pais lhes dão e não os pais comerem o que os filhos sugerem, ignore-se o facto de ser tão provável o pai aceitar comer só verduras como o filho não pedir um bollycao e umas batatas fritas para o pequeno-almoço, e o conselho de Fernando Pinto abre portas para outras propostas igualmente credíveis. A saber:

  • Devem ser os filhos a educar os pais em relação a possíveis investimentos de risco no mercado de capitais: a vasta experiência dos petizes na transacção de pokémons, o domínio da especulação dos gormitis, sem contar com o ratio de gomas de gelatina em relação àquelas cobertas de açúcar, tornam a garotada mais que apta a aconselhar os pais sobre créditos, empréstimos a prazo e penhoras.

  • Devem ser os filhos a educar os pais em relação a adoptarem mais hábitos de leitura: muito bom livro se tem publicado por cá – não vem a propósito, mas dizem que o meu “Um Cappuccino Vermelho” é um bom exemplo disso – e é incompreensível ainda haver quem opte por passar a maior parte do seu dia a trabalhar em vez de ler tão boa literatura como é a literatura portuguesa. Cabe às crianças, como apaixonadas pela leitura que são, ensinar aos pais que o dinheiro não é tudo na vida. O que se tira de um Pessoa ou de um Eça é algo que não tem preço. A não ser o preço de capa.

  • Devem ser as crianças a educar os pais em matéria de sexualidade e consumo de drogas. Tantas e tantas vezes que acontece os pais apanharem os filhos em ritos de auto-gratificação ou a preparar um charro e perguntam: “O que é que tu estás a fazer?”. A ignorância parental em relação a estas matérias é inadmissível com tanta informação disponível hoje em dia. Se calhar, se em vez de serem tão compenetrados nos seus deveres profissionais, investissem algum tempo a analisar certo e determinado tipo de cinema, evitariam passar por este vexame.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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