postigo #15: UM POUCO MAIS ABAIXO

Abaixo de nós, muito abaixo de nós, vivem espécies animais só há pouco descobertas. Na gruta de Krubera-Varónia, a gruta mais profunda do mundo, com mais de dois mil metros de profundidade, foram descobertas quatro novas espécies de colêmbolos, pequenos insectos primitivos sem olhos e sem asas. A grande profundidade do local, a falta de alimento e a total ausência de luz não faziam prever a existência de vida nesta gruta situada na região da Abkhazia, na Geórgia. Uma expedição ibero-russo, da qual fez parte Sofia Reboleira, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, provou que, por mais longe que se vá, encontra-se sempre vida. E enquanto há vida, há esperança.

Abaixo de nós, muito abaixo de nós, há um mundo por explorar. A CAVEX Team, nome desta expedição que reuniu portugueses, espanhóis, russos e ucranianos iniciou a exploração de Krubera-Varónia há cerca de dez anos, mas só agora começou a estudar a fauna local. Que mais descobertas farão?, é a pergunta que todos colocam.

Abaixo de nós, muito abaixo de nós, mas não é fácil chegar lá. Parte do percurso tem de ser feita a pé, outra parte requer o uso de camiões militares para transportar o equipamento pelas montanhas do Cáucaso até ao vale de Ortobalagen, onde se encontra a gruta de Krubera-Varónia e outras. E a seguir vem a parte realmente difícil.

Abaixo de nós, muito abaixo de nós, o início desta aventura foi um sucesso e há vontade de regressar ao local em 2013. Motivados pelo fascínio e pela possibilidade, estes e outros cientistas darão o seu melhor para ir mais longe, um pouco mais longe, um pouco mais abaixo, sempre em busca de vida. Sempre em busca de esperança.

* * *

Acima de nós, mas não muito acima, num terceiro andar de Matosinhos, mora um casal de septuagenários, Filipe e Margarida Fernandes. Em 2006, Filipe sofreu um AVC e desde então ficou preso a uma cadeira de rodas. Sendo Margarida incapaz de carregar sozinha com o marido e respectiva cadeira pelos degraus que dão acesso ao elevador, o casal propôs ao condomínio a construção de duas rampas – uma sobre os degraus que dão acesso ao elevador e outra, no exterior, das escadas até à rua – e disponibilizaram-se a assumir os custos da obra.

Acima de nós, mas não muito acima, o casal recebeu a recusa do condomínio quanto à sua proposta. Invocaram razões à partida plausíveis, como a redução da largura das entradas e o facto de as rampas terem de partir quase do passeio, o que dificultaria a passagem dos carrinhos do correio. Talvez devessem ter apresentado como argumento a obesidade mórbida de algum dos inquilinos e a impossibilidade que este teria em aceder ao prédio por uma via tão estreita. Talvez se tivessem apresentado este argumento tão irrefutável, o Instituto Nacional para a Reabilitação não teria refutado todos os argumentos apresentados pelo condomínio contra a construção das rampas.

Acima de nós, mas não muito acima, Margarida e Filipe procuraram ajuda junto da Câmara de Matosinhos, que aconselhou o casal a mandar construir as rampas e a processar os restantes condóminos. Estou certo que o casal agradeceu tão útil conselho. Assim como estou certo que, uma vez iniciadas as obras, não tardaria a ir lá um inspector municipal perguntar por licenças e autorizações e outras documentações.

Abaixo de nós, muito abaixo de nós, vivem espécies sem olhos ou pigmentação. O zoólogo Enrique Baquero, da Universidade de Navarra, explicou algumas das características das novas espécies descoberta emKrubera-Varónia num artigo publicado na revista Terrestrial Arthropod Reviews.

Um pouco mais abaixo, no que à moral diz respeito, reside o arquitecto que projectou o prédio onde moram Filipe e Margarida Fernandes. Ele é um dos opositores mais veementes à construção de qualquer infra-estrutura no prédio, justificando a oposição com razões técnicas. A velha desculpa das razões técnicas que, desculpar-me-ão os arquitectos sérios e desprovidos de egos exarcebados, tantas vezes quer dizer motivos estéticos. Em muitos casos o que está em causa é a salvaguarda da criação artística e não a melhoria da sua funcionalidade. Uma visita a alguns edifícios públicos demonstrará que a estética e a funcionalidade em muitos casos não coexistem. E deviam.

Um pouco mais acima, ou mais abaixo, conforme o ego e o zelo que cada um tem pelo seu trabalho, a Arquitectura deveria ser uma actividade que, pela sua multidisciplinaridade, deveria e poderia incentivar a sociedade a pensar, a criticar e a agir. Não deveria ser, como muitas vezes é, uma forma de ostentação pública que só agrada por afinidade ao autor ou porque é preferível acreditar que aquele trambolho que custou milhões de euros é a obra mais bonita do mundo em vez de vê-lo pelo que realmente é. Os bons arquitectos, na minha opinião, estão cientes disto e trabalham não para si, mas para a posteridade; para a justa posteridade, entenda-se. Possuem uma visão a longo prazo.

Outros há que conseguem ver menos do que colêmbolos sem olhos.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Postigos com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s