ângulo #15: ORGULHO EM SER PORTUGUÊS

De vez em quando gosto de ir ao baú e remexer na papelada antiga em busca de ideias novas. Existem assuntos intemporais que, caso não possam ser aproveitados no momento em que são notícia, podem ser abordados em qualquer altura sem que haja perigo de cheirarem a mofo. Diga-se de passagem que, mesmo na altura em que são noticiados, a maioria destes assuntos não tem qualquer relevância jornalística ou informativa – são meros “tapa-buracos”. Todavia, têm o seu inegável quê de cómico e é isso que me interessa.

Outro motivo pelo qual gosto de vasculhar no passado assemelha-se ao anterior no sentido em que o destaque que é dado a informação é o mínimo possível. Falo daquelas notícias de canto de página, aquelas com que os pivots encerram os serviços noticiosos, já com os créditos a passar, tudo muito rápido, muito mal amanhado porque não interessa a ninguém. Já deu o futebol, o que é que interessa aquilo?

Eu tendo a ver essas notícias de canto, no caso das revistas e jornais, não como notícias breves, mas como as letrinhas pequeninas do contrato; aquelas que ninguém lê e depois é o que se sabe. Não estou a dizer que tudo o que vem lá é importante, embora uma leitura mais atenta desses segmentos não faça mal a ninguém. Pronto, pode ocorrer um ocasional desvio de retina devido ao tamanho reduzido dos caracteres, mas fora isso não há qualquer perigo.

A notícia que me inspirou para este artigo era bem pequena; daí eu ter gasto três parágrafos a engrominhar isto tudo. Eu não sei qual foi o critério exacto que determinou que esta notícia tivesse um destaque tão pequeno; não se trata de um “tapa-buracos” nem é, na minha opinião, algo que se deva esconder por… digamos, vergonha. Não me recordo de que jornal foi isto tirado, mas no título lê-se: «Portugal bebe 42 litros de vinho por ano».

Antes de mais, importa clarificar o título àqueles que estão meio ébrios. Atenção: Portugal não se transformou em gente e emborcou quarenta e dois litros de vinho carrascão numa tasca. Estes quarenta e dois litros são uma média feita entre toda a população portuguesa. O que, considerando que somos um pouco mais de dez milhões, é uma média muito fraquinha. Mal dá meio cálice dos pequenos a cada um. É manifestamente pouco e, visto apenas desta perspectiva, explica o porquê de quererem enfiar esta notícia num canto recôndito.

No entanto, este resultado colocou-nos em quarto lugar a nível mundial. Nível mundial, repito. Eu sei que o quarto lugar não é o mesmo que o terceiro ou o primeiro – o segundo não conta porque é o equivalente ao tipo que está num campeonato de pénaltis e perde por um porque já não aguenta mais; diz que lhe dói o fígado, o mariquinhas – mas é um lugar de honra. O quarto lugar é quase no pódio; e às vezes ainda recebe medalhas. Eu sei que o “quase” pode ter uma conotação tão má como o segundo lugar, mas não olhem para isto como um falhanço da nossa parte. Pensem nisto como… um incentivo.

Desta vez chegámos ao quarto lugar, para a próxima vamos chegar ao primeiro. Todos sabemos que não está fácil; as bebidas estão cada vez mais caras e ao que parece, eu só soube disto ontem, já não se pode substituir o leite nas papas para bebés por vinho verde. Primeiro acabaram com o vinho escolar, agora é isto. Mas apesar destes contratempos, nós temos uma tradição rica em bebedolas. Olhem para a nossa programação televisiva, para as figuras do jet set, para os resultados eleitorais – se não estamos a falar de vinho, estamos certamente a falar de drogas pesadas. Por isso, tenhamos orgulho naquilo que é nosso! Tenhamos orgulho em sermos portugueses! Assim que acabar de escrever este artigo vou comprar um garrafão de tinto e estes trigémeos que estão a ler o jornal aqui ao pé de mim vão beber também! Vamos mostrar a essa estrangeirada que–

Desculpa, disseste alguma coisa?

Ah! És só um. Pois…

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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