postigo #14: TDT

Daqui por alguns meses vão ser publicados vários artigos sobre a TDT. A capa de uma das edições de Fevereiro da revista Sábado vai ser, arrisco dizer: «TDT: Um ano depois. Saiba o que mudou na vida dos portugueses.» Pois bem, não quero privar ninguém do seu ganha-pão, mas não há razão para esperar tanto tempo. As mudanças já se estabeleceram e são agora rotina. O balanço? Do que me é dado a conhecer, muito mau. Não fiz nenhum estudo sobre a matéria, baseei-me apenas em testemunhos de pessoas conhecidas e no que parece ser o consenso geral. Das pessoas que viam televisão por sinal analógico, aquelas que aderiram a serviços de televisão por cabo continuam a ver – agora com mais canais –, das que aderiram à TDT, são uma escassa minoria aquelas que conseguem apanhar alguma coisa de jeito. Dos casos que conheço, todos em zona coberta pelo sinal, ninguém consegue apanhar nada. Seja com antenas interiores, exteriores, pára-raios, o que for. E antes que o digam, a resposta é: sim, estou a exagerar em algumas partes. E a mentir descaradamente noutras.

Mas foi assim que nos venderam o peixe. Disseram-nos que iríamos ficar com uma emissão melhor, uma imagem mais nítida, ficaríamos com capacidade de gravar programas e de retroceder até ao início caso apanhássemos a emissão de um programa a meio. Incrível! Nem os serviços de televisão por cabo tinha esta opção então e o mais incrível é quando se percebe que o aparelho do TDT é um mero conversor de sinal. Alguns modelos têm um disco rígido interno, outros não e não ser que liguem o aparelho a um gravador aquilo não grava nada! Teríamos os quatro canais generalistas, mais a possibilidade de canais regionais e locais. A possibilidade pode existir; não quer dizer que se concretize.

E o que é que temos no fim de contas?

Nos casos em que funciona, há quatro canais e pronto. Não pensem que um dia vão ver o canal da terrinha porque não vão. Com sorte, e também por imposição da União Europeia, poderão vir a ter o Canal Parlamento. Mais do que isso, com os custos que isso acarreta e com a burocracia em que somos peritos, será difícil.

Mesmo aqui ao lado, e não só, quando o sinal analógico foi cancelado, falou-se da abertura do sinal a novos canais. Tal como se fez por cá. Não se falou da possibilidade de gravar programas ou de andar para trás com a imagem porque os espanhóis não iriam cair numa patranha dessas. Contudo, ao contrário do que se fez por cá, lá fez-se alguma coisa.

Por que motivo lá se fez e aqui não? Confesso que não sei quem tratou das coisas lá, mas quem tratou de tudo cá foi a PT. O nome parece familiar? É normal, são os proprietários de um dos serviços de televisão por cabo a operar em Portugal que poderiam vir a sentir-se ameaçados pelo bom funcionamento do TDV e pela adesão em massa de portugueses insatisfeitos com o seu serviço de televisão por cabo. Talvez isso explique porque é que o aparelho dá tantos problemas e porque é que a oferta de canais é tão limitada. Não digo que isto pudesse acontecer com todos, mas arrisco dizer que – na eventualidade desta geringonça funcionar sempre na perfeição, nem que fosse só com os quatro canais – haveria clientes a cancelar os seus serviços de televisão por cabo, demasiado dispendiosos para os seus orçamentos, e a passar para a TDT.

Infelizmente, essa possibilidade não existe. Extinto o sinal analógico, ficámos limitados a aderir a serviços de televisão por cabo ou a não ver televisão de todo. E isso, para mimm é o que custa mais. Estar privado dos quatro canais portugueses é um martírio. Sem eles, como é possível dizer: “Não está a dar nada de jeito!”?

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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