postigo #13: ALGO QUE NÃO É EXACTAMENTE UMA MANIFESTAÇÃO

Direitos da foto pertencentes ao jornal Expresso

Descendo a Rua da Prata, passando por aquela tão vezes visitada croissanteria, ao parar no semáforo para atravessar a Rua S. Julião oiço gritos vindos de não muito longe. Olho para a direita, na direcção da Rua Augusta, e vejo uma multidão imensa descendo a rua. Lembro-me das Escolas de Verão que os partidos têm por hábito organizar nesta época e penso: deve ser uma praxe.

O semáforo fica verde. Atravesso e continuo a escutar os gritos; as vozes unem-se num crescendo que atinge o seu auge quando, cada um do seu lado, chegamos quase em simultâneo ao Terreiro do Paço. Só aí contato: a multidão, mais que imensa, é… gigante. Em frente à entrada do antigo Ministério do Exército vejo várias bandeiras hasteadas, no meio da multidão que continua agitada e aos gritos mais bandeiras são agitadas. Será isto algum evento internacional que me passou ao lado? Alguma visita surpresa do FMI e aquela multidão está ali para se manifestar contra a austeridade que nos é imposta? Será isso?

Reparo então num veículo da PSP e aproximo-me para procurar esclarecimento junto dos dois agentes.

Boa tarde”, disse.

Olharam para mim, circunspectos. Acenaram. A pose é tudo.

Isto…”, comecei, apontando para a mol atrás de mim, “que está a haver aqui… é o quê?”

Resposta pronta, porém não exactamente esclarecedora, de um dos agentes: “Não é nenhuma manifestação. É completamente normal.”

Normal? Eu passo pelo Terreiro do Paço quase todos os dias. Normal normal, pelo menos até há bem pouco tempo, era aquilo estar em obras; ter aquilo cheio de pessoas com bandeiras de vários países não é exactamente normal.

Estava elucidado quanto ao que aquilo não era, o que tornava perto de infinito o número de coisas que aquilo que parecia, mas não era, uma manifestação poderia ser. Permaneci no mesmo sítio por mais alguns segundos, o que deve ter feito o senhor agente pensar que eu já estava a fazer perguntas a mais.

Foi então que eu pensei: porque é que ele disse logo de caras que aquilo não era uma manifestação? Porquê a necessidade de especificar o que não era, em vez de dizer o que era? Será que me lera os pensamentos? Tremi. Se isso tivesse acontecido, continuar nestas divagações apenas contribuiria para aumentar o tamanho do buraco onde eu próprio me estava a enterrar.

Nisto, o segundo agente, despachado que estava de trocar SMS, juntou-se à conversa adicionando informação que, essa sim, esclareceu-me. E tranquilizou-me quanto à possibilidade de os agentes da PSP serem dotados de poderes mentais. O segundo agente explicou-me que tinha sido realizada uma regata com veleiros de vários países e aquilo eram os vários participantes e seus apoiantes a celebrar. Estive quase para dizer: “Estão, portanto, a fazer uma manifestação do seu contentamento?” Mas não disse. Não queria abusar da sorte.

Agradeci aos agentes pela ajuda prestada a ferros e afastei-me para ver mais de perto as comemorações. Agora que sabia o que aquilo era, uma outra dúvida surgia: porquê aquele rápido escamotear da palavra manifestação? Será esse o novo procedimento da Polícia de Segurança da Palavra, como já ouvi alguém usar? A palavra, como todos nós sabemos, tem um poder absoluto para a criação ou para a destruição, dependendo de quem a use, e para que fim. Será a palavra manifestação assim tão poderosa que não possa ser usada sem pensarmos em confusão, contestação, indignação, insurreição, repressão, indignação? Pelos vistos, sim.

Sobre o evento que decorria ali podia-se dizer que era uma exibição de alegria, uma exposição de contentamento, uma demonstração de euforia, quanto muito um assinalar de regalo, mas nunca uma manifestação de júbilo. Será isto um mandamento da Troika ou mais uma bula de um Governo que se vê a si mesmo mais papista que o próprio Papa? As palavras são perigosas, como já aqui se disse, e não importa que possam significar mil e uma coisas: o único significado que conta é aquele que pode prejudicar a reputação do Governo.

As palavras nocivas são varridas para debaixo do tapete. São vetadas. Isto deixa de ser isto e passa a ser aquilo, isto e aquilo representam exactamente o mesmo, embora isto tenha outro sentido que aquilo não tem. Da palavra manifestação não importa se nos referimos a ela em sentido figurado ou se usamos a sua exacta definição , o que importa é bloquear o uso da palavra. No seu sentido conotativo qualquer palavra – e esta mais do que tantas outras – é perigosa; no seu sentido denotativo o perigo é ainda maior porque denotar é detonar com letras trocadas.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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