postigo #12: MORTES E REMORTES

Na banda desenhada ninguém morre para sempre. Quem como eu cresceu a ler banda desenhada da Marvel e da DC sabe que é assim. O Super-Homem foi morto, o Homem-Aranha também; vários heróis e vilões foram mortos incontáveis vezes e continuarão a ser mortos sempre que isso faça falta. Em certas sagas – Crise nas Infinitas Terras, Hora Zero, Desafio Infinito e muitas outras – foram exterminados universos inteiros. Em suma, não há limite para o número de vezes que alguém pode morrer e ressuscitar, conquanto que isso seja plausível. (É certo que em alguns casos, essas ressurreições acontecem apenas porque sim, mas não percamos tempo a pensar nisso agora.)

Hoje em dia, embora não leia tanta banda desenhada como lia antes, continuo a ser um fã. Longe de ter perdido o gosto, o que aconteceu foi ter eu ter ganho outros focos de interesse. Porém, da mesma forma que costumamos trazer recordações dos sítios por onde passamos (dos bons, pelo menos), também esta característica de eterno divino dos comics seguiu-me sem que eu desse conta e, tal como um vírus, espalhou-se por estes admiroploravéis mundos novos que são as redes sociais.

O caso mais recente – tanto quanto tenho conhecimento – de ressurreição foi o de Vasco Granja, falecido em 2009, que voltou à vida no início do passado mês de Maio por via da rede social Facebook. É impossível não traçarmos uma leitura simbólica neste retorno inexpectável. Jesus ressuscitou ao fim de três dias, Vasco Granja remorreu ao fim de três anos.

O paralelo desta segunda morte, ou remorte se preferirem, de Vasco Granja com o universo da banda desenhada e dos super-heróis é ainda mais evidente. Para muitas crianças e jovens dos anos 70 e 80 (eu não me recordo de ter sido um deles, infelizmente), Vasco Granja foi um autêntico super-herói: um providenciador de momentos únicos de animação. Eu sei que ficava bem eu dizer que era fã do Vasco Granja, mas tenho respeito ao senhor e não me vou proclamar fã de sempre só porque sim. Não vou dizer que fui quando não (tenho a certeza se) fui.

A notícia da remorte de Vasco Granja propagou-se e saltou da sociedade virtual do Facebook para a redacção (também virtual) do jornal Público. Casos como este começam a tornar-se cada vez mais frequentes. Não obstante o cuidado que os jornais têm em manter os seus arquivos actualizados, na Internet é possível encontrar tudo. No site archive.org é possível encontrar cópias de sites já desaparecidos. Nesta ligação (web.archive.org/web/19961102125336/http://www.dn.pt/) é possível encontrar uma cópia virtual da edição de 2 de Novembro de 1996 do jornal Diário de Notícias. Se por um lado é bom ter esta informação disponível, por outro é preciso que quem a aceda perceba que está a aceder a notícias desactualizadas.

Quando não é tido este cuidado, quando as informações do passado são divulgadas como descobertas de última hora, podem acontecer situações desagradáveis. Em campanhas eleitorais nenhum argumento é sujo o suficiente para não ser usado como arma. Uma frase tirada do contexto, um dito antigo espalhado pelas redes sociais, pode significar a morte de um político. Infelizmente, tal como na banda desenhada, os políticos também não morrem para sempre. Geralmente morrem durante uns anos e depois renascem.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Postigos com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s