ângulo #12: UM BEM ABUNDANTEMENTE ESCASSO

Quero começar por lhe perguntar, estimada pessoa que lê este artigo, se já bebeu hoje os seus dois litros de água recomendados? Já? Então deixe-me dizer-lhe que é uma besta. Calma! Não é preciso começar logo aos gritos. Além de ser falta de educação, eu não vou conseguir escutar nada do que está a dizer. Acalme-se e deixe-me explicar, porque através da minha explicação perceberá que também eu sou uma besta. Todos somos.

Apesar de habitarmos num planeta chamado Terra, a maior parte da sua superfície está coberta por água. Sempre habituados a essa abundância, crescemos com a noção de que não teria fim. A Bíblia fala do grande dilúvio, os cientistas falam do derretimento dos blocos de gelo nos pólos: vivemos constantemente sob a ameaça do excesso de água. Os médicos aconselham a beber muita água porque faz bem aos rins. Mas será esse o único motivo por detrás das suas recomendações? Não estarão eles a tentar impedir que aconteça um novo dilúvio porque as pessoas não estão a beber água suficiente?

O Serviço Geológico dos Estados Unidos resolveu investigar se isto seria mesmo assim e os resultados foram uma verdadeira chapada psicológica a todos aqueles que tinham a mania de dizer: “Então, mas se a maior parte do planeta é coberta por água, porque é que não nos chamamos Água em vez de Terra?” Porque, conforme mostra a imagem obtida, não há assim tanta água como nós julgávamos.

Na verdade, toda a água do planeta (à excepção da que já está engarrafada) equivale a uma bolha de 1385 quilómetros de diâmetro, um pouco menos que a distância que vai de Lisboa a Paris. (Estou a citar dados; não fui medir.) E desta água toda, se descontarmos a água salgada e água que está congelada nos pólos, ficamos apenas com… 1%. 1%, repito.

Tenho sentimentos ambíguos em relação a esta descoberta. Por um lado é preocupante que haja tão pouca água. É preciso começarmos a poupá-la porque não há tanta quanto nós julgávamos. (Daí a parte de sermos todos umas bestas: andámos a beber à grande e qualquer dia vamos sofrer as consequências.) Por outro lado, alivia-me que tenham acabado de vez com as pretensões daqueles que queriam mudar o nome do nosso planeta para Água. Já pensaram como passaríamos a ser designados? Aguados? Aguestes? Águeos? Seria demasiado estúpido.

Agora que penso nisso, um nome estúpido poderia ser uma forma perfeita de atrair visitantes de outros planetas. Nada mais funcionou, pode ser que eles sintam curiosidade em visitar o planeta com o nome mais idiota da Galáxia. É claro que se isso acontecer não poderemos recebê-los com champanhe: terá de ser com água.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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