ângulo #11: ÓRGÃOS A RETALHO

Um grupo de cientistas da Universidade de Yokohama criou um fígado humano a partir de células estaminais. Este acto, que alguns apelam de “imoral”, outros de “um notável avanço científico”, é uma tremenda falta de respeito pelo trabalho que as campanhas de combate ao alcoolismo têm desenvolvido nos últimos anos. Seja por questões de saúde, seja para minimizar a sinistralidade rodoviária, um dos argumentos mais vezes esgrimidos é: “Não beba tanto. Olhe que isso dá-lhe cabo do rim.”

Agora vai deixar de ser assim. Graças aos japoneses, a pessoa vai poder beber sem se preocupar com as consequências. Antes também não se preocupavam, apenas se queixavam quando elas aconteciam. É o fim das cirroses. Da maleita, não da bebida. Essa, para gáudio de muitos, vai continuar a existir.

Aliás, as consequências desta descoberta ao nível do álcool não ficam por aqui. Expressões como “Não dês bagaço ao recém-nascido que faz mal.”, ou “O médico mandou-me largar a bebida.”, ou ainda “Olá, sou o Hélder e sou um alcoólico.” vão deixar de se ouvir. Quer dizer, a última é capaz de se continuar a ouvir, só que em vez da habitual retribuição solene – Olá, Hélder. – passará a haver uma reacção esfusiante. “És um alcoólico? Nós também! Ehhh!” E haverá uma festa, finda a qual estarão todos em coma alcoólico.

Por outro lado, iremos assistir ao aparecimento de outras expressões que antes julgávamos improvavéis de existir. Ditos do género: “Traga-me um cheirinho com mousse de chocolate. Mas não abuse da mousse que o médico disse para eu cortar nos doces.”; “Qual é o vinho da casa?” , “É o Caves d’Eira. É muito bom.”, “Pode ser. Traga-me um barril.” passarão a fazer parte do nosso quotidiano.

Mais uma situação: ao arrumar a mochila do filho, uma mãe encontra uma garrafa escondida e chama o filho:

André Pedro, anda cá já!”

O André Pedro vem e…

Importas-te de me explicar o que é isto aqui?”

É sumo de laranja.”

Que é sumo de laranja, sei eu! O que é que fizeste ao cantil de aguardente que o teu pai te ofereceu?”

Emprestei-o a um colega.”

Emprestaste a um colega. Pois. E agora o teu colega anda bêbado e tu andas sóbrio. Sim senhor! Olha que lindo serviço!”

Nunca provei saké, mas estou desconfiado que, se não foram eles, de certeza que houve alguma grande marca de bebida alcoólica a financiar este estudo. Quem mais senão eles tem a ganhar com isto?

Daqui por uns anos, a continuarmos desta maneira, a pessoa dá por si numa situação em que precisa de um transplante urgente de fígado (espera: é transplante urgente de fígado ou é transplante de fígado urgente? É como eu escrevi? De certeza? Ok, era só para confirmar.) e em vez de ir ao hospital, vai à loja- Pensando bem, ir à loja é muito antiquado para ainda existir no futuro.

O cenário mais provável é a pessoa estar em casa, espojada no sofá, bebendo cerveja a soro enquanto faz a hemodiálise com um bidon de aguardente, e começar a sentir uma dorzita. Assim que isso acontece, a pessoa usa o neurocomunicador implantado no seu cortex cerebral – o equivalente a um telemóvel 9G – e encomenda um fígado novo. Um fígado, um rim, um pâncreas, o que precisar. Será um bocado como a Telepizza: de vez em quando enganar-se-ão no orgão, os atrasos serão frequentes, mas fora isso funcionará tudo bem.

Como eu anseio por esse futuro.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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