postigo #10: FORA DE ÉPOCA

Na Madeira não se comemora o 25 de Abril. Não porque os madeirenses julgam que não há razões para comemorar a data, mas porque não faz sentido assinalar efemérides antes de estas ocorrerem.

Primeira piada.

Segunda piada:

As eleições na Madeira são livres e democráticas: as pessoas são livres de votarem no candidato Alberto João Jardim ou de ficarem em casa.

E como estas há outras. Muitas outras. Não foi, todavia, com o propósito de troçar, denegrir, difamar, humilhar ou ofender as pessoas da Madeira que eu me propus escrever este artigo, e sim de compreender. Como continental estou familiarizado com um rol sem fim de piadas sobre a falta de legitimidade democrática na Madeira, mas, atrevo-me a perguntar: seremos assim tão diferentes? Olhando para os valores da abstenção em Portugal Continental, terão Passos Coelho, e outros ex-governantes, mais legitimidade do que Alberto João Jardim? Coloco estas perguntas como um mero cidadão curioso; não nutro por estes dois senhores e suas ideologias qualquer espécie de simpatia.

Dia após dia, com a imposição de medidas cada vez mais austeras, aquele fosso que sempre separou uns de outros vai tornando-se cada vez mais profundo. Os casos de pressão à imprensa, censura, asfixia democrática, lobbying empresarial, corrupção activa e passiva, favorecimento ilícito, etc., acontecem tanto no continente como nas ilhas. Não podemos por isso julgar o que acontece lá quando não nos faltam telhados de vidro para reparar.

Não gosto de falar do 25 de Abril porque tudo aquilo que não seja enaltecer, tudo aquilo que cheire a leve mas é lido como fedendo a fascismo. No entanto, os mas são para se dizer, nem que seja só para ser chamado à atenção. Há semanas falei do saudosismo: continuarmos a olhar para o passado em busca de soluções não nos vai ajudar os problemas do presente. Com o 25 de abril passa-se mais ou menos o mesmo. Foi uma ideia boa e teria sido excelente se tivesse funcionado e durado, mas não foi isso que aconteceu. O 25 de abril que se assinala hoje em dia não é o 25 de abril que se fez em 74. Já foi, já não é. E não faz sentido continuarmos a chamar de calças aquilo que agora são calções. Continua a ser um feriado, mas perdeu a sua razão de ser.

Sei que muitos irão ler este artigo sem prestar atenção e vão ler o parágrafo anterior como uma opinião a favor da extinção do feriado do 25 de Abril. No Facebook, no meu blogue, talvez em jornais e mesmo no meu email não deverão faltar mensagens construtivas e coloridas alusivas às minhas preferências sexuais e políticas. Mas tudo bem. Quero dizer, porém, que não sou a favor a extinção do feriado do 25 de Abril; aprecio esse feriado e o descanso que ele providencia, principalmente quando não calha ao fim de semana, apenas contesto a actual relevância dos seus seus conteúdos. Talvez Alberto João Jardim tenha uma bola de cristal e a razão pela qual o 25 de Abril não se celebra na Madeira seja porque ele sabia de antemão que a coisa não iria dar certo.

Se calhar, estamos a pensar nisto de forma errada. Se calhar, o que faz falta não é revitalizar, restaurar, ressuscitar ou renovar. Se calhar, o que faz falta é um novo feriado em vez de um feriado antigo em que só os saudosistas acreditam e os oportunistas utilizam.

Numa edição do programa Governo Sombra, emitido semanalmente pela TSF, Ricardo Araújo Pereira afirmou o seu desdém por dois sectores da nossa sociedade. A saber: o Povo e os Militares. Contudo, frisou, souberam juntar-se para fazer o 25 de Abril. Foi um daqueles casos, continuou Ricardo Araújo Pereira, em que dois seres feios se uniram para dar à luz um ser bonito.

O problema é que, quando nascem, todos os bebés são giros (mesmo quando não são, ninguém tem a coragem de dizer o contrário), mas depois crescem. Ganham vícios, respondem aos pais, emancipam-se, começam a andar com más companhias. Enfim, estragam-se. Por isso é que eu acho que está na altura de estes pais, ou outros, terem um novo filho. E se este filho puder evitar os erros do irmão mais velho, tanto melhor para todos. Pode ser que cresça para se tornar algo de que todos nos orgulhemos.

(Tentem é não fazer esta revolução durante o mês de Agosto. Ter uma data história associada ao mês da silly season seria denegrir a importância da data à partida.)

Última nota: Anteontem assinalaram-se os 36 anos de Autonomia Madeirense, efeméride curiosa considerando o seu défice de 6,3 mil M€ (123% do PIB da Madeira).

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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