ângulo #10: O FIM DA BANDALHEIRA

Um país que não se sabe governar é um país que não vai para a frente: sempre foi assim, sempre será. Em todos os momentos da nossa História em que não sabíamos para quem nos virarmos ou o que fazer, lá aparecia alguém para pôr ordem na casa. Foi assim com a dinastia dos Filipes, foi assim com os Liberais, foi assim com os republicanos, tornou a ser assim com os republicanos, novamente com os republicanos, depois com o Sidónio, a seguir com os militares, depois com o Salazar, depois com os militares, depois com senhores de bigode, depois com a troika, depois com a troika e, finalmente, com a troika.

O Einstein (ó para mim a parafrasear figuras importantes) disse que a insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Não podia estar mais certo. Quem acompanha as notícias sobre a Secretaria de Estado Portuguesa da troika, terá de concordar que Passos Coelho e a sua canalha (canalha no sentido de populacho, ou seja, o mais próximo que se pode estar da facção mais pura do povo) estão a milhas de andar a fazer sempre a mesma coisa à espera de resultados diferentes.

Na última avaliação que fez ao desempenho do seu, perdão, do nosso Governo, a troika até disse “Sim, senhor. Não está mau. Mas se calhar davam um toque nisto do desemprego.” De início pensei que fosse para aumentar, mas não: era mesmo para diminuir. Gostei do objectivo, mas fiquei um pouco baralhado. Afinal de contas, com poucos dias de diferença – ou talvez tenha sido no mesmo dia, não me recordo – outra notícia dava conta da necessidade de reduzir a duração do subsídio de desemprego, diminuir os custos de trabalho e aumentar a flexibilidade. De início pensei que estivessem a falar de flexibilidade no âmbito da ginástica, mas não: era no âmbito da ginástica sim, mas da ginástica financeira, não da física. Portanto é preciso combater o desemprego, mas também é preciso poder despedir mais facilmente e por menos dinheiro.

Há semanas falei do ministro da Educação Nuno Crato e da sua ideia de diminuir a necessidade de professores com o aumento do número de alunos por turma, ao mesmo tempo que pretendia aumentar o número de professores colocados este ano. Na altura pensei que era uma ideia totalmente sua, agora começo a pensar que será mais uma medida da troika. E olhando com atenção para os restantes ministros, não será caso único.

É a velha história de querer ficar com o bolo intacto e comê-lo ao mesmo tempo. Se bem que, no caso do bolo, a situação é mais fácil de resolver: basta comprar dois bolos. É nestas alturas que me dá pena não haver dois Portugais. Ao menos assim agradava-se a toda a gente: os patrões despediam à vontade, o Estado não gastava tanto dinheiro e todos os portugueses tinham o seu emprego.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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