postigo #9: MT 6:24. MAS SÓ QUASE

Um inequívoco sinal dos tempos tem sido o decréscimo de esmolas nas missas. Além de cada vez menos pessoas darem a sua contribuição, aqueles que continuam a demonstrar a sua genoridade não podem continuar a fazê-lo nos mesmos moldes de outrora. Não existe uma razão que explique de forma absoluta por que razão isto acontece: pode ser falta de dinheiro, pode ser descrença, pode ser outra coisa qualquer.

Como ateu não acredito em Deus, mas agradeço a sua pseudo-existência, no sentido em que me providencia material para análise. Cresci a ouvir falar de Deus Todo-Poderoso, Deus Omnipotente, Aquele que tudo pode. Tudo pode, à excepção de gerir bem o seu dinheiro. Ou será que não? A verdade é que nunca ouvi Deus queixar-se de não receber esmolas suficientes. Essas queixas sempre vieram dos seus representantes. Representantes esses que são humanos e corruptos como todos nós. Uma Igreja rica como é a Igreja Católica queixar-se de não ter dinheiro é como o Américo Amorim dizer que não é rico.

É preciso não esquecer que muito do dinheiro que recebem é usado em obras de cariz social. Nunca é demais realçar que existe um bom uso para parte desse dinheiro. A questão não é onde gastam esse dinheiro, e sim porque é que só gastam esse dinheiro nesse fim. Causa-me alguma perplexidade que a Igreja se queixe de não ter dinheiro suficiente depois de ter gasto cerca de 250 mil euros no projecto Fátima 2.0. Causa-me ainda mais estranheza queixarem-se que não têm dinheiro suficiente quando possuem um vasto património em ouro e outras preciosidades. Se o problema é mesmo a falta de dinheiro, não lhes falta sítios onde o arranjar.

Eu sei que muito desse património constitui obras de arte marcantes da história da humanidade, mas quantos tesouros inestimáveis não foram destruídos por essa mesma Igreja? Não foram os únicos, claro. Outras religiões fizeram o mesmo. É uma prática corrente quando se pretende acabar com uma crença: destruir os seus símbolos. Já visitei várias Igrejas e Museus, admirei muitas peças, mas se tivesse de escolher entre admirar a Custódia de Belém e derretê-la para trocar o ouro por dinheiro numa loja própria para esse efeito e comprar comida para alimentar quem pudesse durante o máximo de tempo possível, não teria qualquer dificuldade em decidir. Talvez por eu não ser crente me seja fácil colocar a questão de destruir uma obra que para mim possui apenas valor estético e nada mais. O propósito deste exemplo não era tanto demonstrar se eu era ou não capaz de fazer o mesmo se o objecto em questão fosse algo que tivesse significado para mim, mas analisar a relevância que os símbolos têm juntos dos crentes.

Duas notas sobre os símbolos. Primeiro: não representam nada para quem não acredita. E quem acredita não acredita mais por ver um símbolo. Segundo: Jesus não foi crucificado numa cruz de ouro de 24 quilates cravejada de diamantes, rubis, safiras e esmeraldas. Torno a relembrar que sou ateu, mas sou capaz de pegar na Bíblia e retirar de lá as seguintes passagens:

«Nenhuma terra será vendida definitivamente porque a terra pertence-me, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes.»
Levítico 25-23

«Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.»
Mateus 6:24

«E prosseguiu: “Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.”»
– Lucas 12:15

Como podem ver, não faltam exemplos da contradição que existe entre o que a Igreja afirma e aquilo que pratica. Sempre funcionou assim porque a religião é uma fabricação do homem. É um mal necessário. Infelizmente, para que ela funcione, é necessário que exista esta contradição. Quando estamos em dificuldades não buscamos ajuda junto de quem parece estar numa situação pior que a nossa. Nunca ninguém esteve numa situação em que precisava de cinco cêntimos para tomar um café e decidiu pedir esse dinheiro emprestado a um mendigo. Pelo menos ninguém mentalmente são.

Procuramos sempre ajuda em quem está acima de nós e talvez isso explique por que razão a Igreja Católica se rodeia de tanta opulência. Por que razão é que não podendo nenhuma terra ser vendida definitivamente, o Vaticano possui o estatuto de estado soberano. Por que razão é que não se podendo servir a Deus e ao dinheiro, os representantes católicos pedem dinheiro aos fiéis como prova da sua devoção.

A triste verdade é que o dia em que a Igreja Católica, ou qualquer outra religião, abandonar as palavras vãs e passar aos actos concretos será o dia em que deixará de existir tal como nós a conhecemos. O que poderá vir daí ninguém sabe.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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