ângulo #9: O FIM DA SINISTRALIDADE RODOVIÁRIA

Eu não sou futurologista. Desde já que fique isto bem claro. Não possuo qualquer espécie de dom mediúnico ou capacidade de adivinhação. Qualquer palpite acertado é uma coincidência e nada mais. Por que razão é que eu estou a frisar com tanta veemência a minha, digamos, normalidade? Porque há uns anos atrás eu previ que a sinistralidade rodoviária iria baixar.

Num texto dos idos da década passada, estabeleci uma relação entre o número de mortos na estrada e o número de acidentes de viação, concluindo que se retirassem os mortos da estrada, deixaria de haver tantos acidentes. Confesso que na altura isto fazia-me sentido; parecia mesmo uma boa ideia. Não há dúvida que o tempo se encarrega de nos abrir os olhos sobre convicções que julgávamos inabaláveis. Mas, enfim, há que ter maturidade e saber crescer. Agora sei que era uma ideia idiota. Como se a simples remoção de corpos da estrada fosse suficiente para acabar com a sinistralidade rodoviária. Não era. Tanto assim que o Governo ignorou todas as minhas cartas e continuou a trabalhar numa teoria só dele. (Cheguei mesmo a enviar vários estudos. Por acaso, nenhum deles era sobre estas matérias, porque os senhores da ASR ameaçaram-me com um processo caso eu tentasse voltar a colocar o meu nome em documentos deles. Que gente tão mesquinha…)

Onde é que eu ia? Aqui mesmo. Ora, a sinistralidade rodoviária começa finalmente a baixar. E a quem é que devemos isso? À especulação financeira. Já sei oque vão dizer. É verdade que o carpooling começa a estar cada vez mais na moda, mas o carpooling contribui tanto para a redução da sinistralidade rodoviária como colocar adoçante no café faz emagrecer. O carpooling é uma consequência da especulação financeira, tal como é a redução da sinistralidade rodoviária.

Não é preciso nenhuma lição de história, economia ou finanças para se perceber de que modo é que a especulação financeira resolveu um problema que parecia não ter solução. Antigamente ocorriam muitos acidentes, não só por causa dos mortos na estrada, mas porque havia muitos carros a circular. As pessoas tinham dinheiro e cada tinha o seu carrito. Qualquer um percebia que o número de veículos em circulação aumentava as probabilidades de acidente. O problema era a quantidade. Ora, o que os senhores da especulação fizeram – e aqui entra também a futurologia, porque especular na bolsa é uma forma de prever o futuro com o dinheiro dos outros – foi tomar uma série de decisões, cujas consequências vieram a reduzir o nosso poder de compra. A bolha arrebentou, as coisas ficaram mais caras, as pessoas deixaram de ter dinheiro como tinham antes e, a pouco e pouco, as coisas foram entrando nos eixos. Por isso é que as pessoas aderiram ao carpooling: não foi para reduzir a sinistralidade rodoviária, foi porque não tinham dinheiro para continuar cada uma no seu popó.

Ter opção de escolha é bom, mas ter demasiado por onde escolher já se torna aborrecido. A pessoa perde muito tempo a analisar as várias hipóteses; tempo esse que podia estar a fazer qualquer coisa de útil. É contra-produtivo. Assim não: a pessoa pode escolher entre ir no porta-bagagens com mais outros dois (caso tire o pauzinho mais pequeno) ou pode escolher ir a pé (transportes públicos só são opção se for sem pagar). E não acaba aqui! A pessoa pode escolher entre aquela operação urgente que precisa de fazer e pagar uma notificação das Finanças. Pode escolher entre pagar o empréstimo ao banco ou pagar a segurança social como trabalhador independente. Pode escolher entre ter televisão em casa ou ir ver televisão para o centro comercial. Pode escolher entre gastar dinheiro em produtos para emagrecer ou deixar de comer que nem uma besta. Enfim, o que não faltam são opções, só que em leque reduzido, o que facilita muito a vida.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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