A IMAGEM – um excerto

Quase a meio das revisões finais do meu próximo romance A IMAGEM, a sequela de Um Cappuccino Vermelho – a publicar, se possível, ainda este ano -, partilho convosco um pequeno excerto. Espero que gostem.

«Acordou numa cama de hospital. Eram cinco da manhã e sentia-se sozinha na escuridão. Não ouvia nenhum som, nenhum respirar, nada que denunciasse que estava mais alguém com ela. Talvez estivesse cega, talvez estivesse sozinha — queria acreditar que era a última. Assustava-a não saber onde estava; quase tanto como não saber o que lhe havia acontecido. Sentia as ligaduras que a envolviam e os tubos que invadiam o seu corpo, bombardeando-a com soro e outras substâncias. As dores, um pouco por todo o corpo, eram um forte sinal de que talvez tivesse estado num acidente.

Tentou mexer o braço — o medo de estar paralisada assolou-a assim que tomou essa decisão — e sentiu os músculos retraírem-se. Sentiu dor e isso fê-la sentir-se bem. Aliviada, mexeu os dedos das mãos e os dos pés. O acidente não a confinara a uma cadeira de rodas. Essas eram as boas notícias. As más era não saber onde estava.

Talvez devesse chamar por ajuda, dar a conhecer a quem lá estivesse que estava acordada. Antes de tentar usar a sua voz, porém, parou para reflectir. Quem lhe garantia que ela estava num hospital? Ou por outra, quem lhe garantia que as pessoas que ali trabalhavam estavam lá para a ajudar? Não sabia de onde vinha tanta desconfiança. Talvez fosse normal uma pessoa ser assim desconfiada em situações daquele género.

Considerou as suas hipóteses: não estando paraplégica, ou nada do género, poder-se-ia levantar, sair sem dar cavaco a ninguém e, abrindo portas e mais portas, encontrar uma saída. A outra hipótese seria chamar por ajuda. Respirou fundo, puxou pela voz e chamou. A sua voz fez-se ouvir, mas apenas na sua mente. Os músculos da garganta ainda estavam muito fracos para produzirem som audível. Esperou um pouco. Tinha a garganta muito seca; um pouco de água era o que precisava.

Os olhos haviam-se habituado entretanto à penumbra, porém, não ainda o suficiente que lhe permitiresse distinguir a forma de algo tão transparente como um copo de vidro com água. A estar num hospital, sabia que não haveriam copos de vidro para os pacientes, por causa dos germes. No entanto, a ideia do copo de vidro, uma vez surgida, não queria mais desaparecer.

No fundo, a questão da dificuldade de ver no escuro servia apenas para dizer que, para encontrar o que fosse, tinha de tactear às cegas, esperando que não derrubasse nada nesse entretanto. Foi assim que derrubou o copo de vidro — mais tarde, com a luz já acesa, descobriu que o copo era na verdade uma jarra com flores — e, sem gastar voz, acabou por receber a assistência de que precisava.

De imediato as luzes acenderam-se e dela se acercaram médicos e enfermeiros. Perguntavam-lhe se sentia isto, se lhe doía aquilo, olhe para aqui, respire fundo, diga ahhhhh.

Nenhum deles lhe fez a pergunta que, entretanto, havia surgido na sua mente; de início tímida, numa zona recôndita, lá ia ganhando força aos poucos e poucos. Era a única pergunta para qual não tinha resposta ou sequer palpite. A única pergunta que a assustava.

Sabe como se chama?»

em A IMAGEM

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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