postigo #8: CONTRA O SAUDOSISMO

Talvez não o seja para todos, certamente sê-lo-á para a maioria, mas é certo o facto de que não estamos numa situação fácil. Aliás, não somos só nós. O mundo inteiro está a passar por grandes dificuldades. O problema é que sempre esteve. Na História da Humanidade nunca houve um período em que estivesse tudo bem para toda a gente. É impossível. Mesmo a nível interno, tal situação nunca se viveu. O que se viveu, o que se vive, é uma ilusão de que antes é que estávamos bem e para o ano vai ser pior.

Não consigo prever o futuro, como tal não me é possível afirmar de antemão se para o ano vai ser pior ou não. Contudo, dizer que antes é que estávamos bem também não me parece certo. É verdade que, em algumas coisas, estávamos melhor do que estamos agora. Por outro lado, também estávamos piores noutras. Eu nasci fora do tempo da Ditadura, mas parece-me que uma Ditadura efectiva é pior que uma Democracia viciada. Antigamente não havia tanto desemprego e havia um telefone no prédio, agora todos têm telemóvel e no prédio inteiro há só uma pessoa que trabalha.

Tudo muda, às vezes para melhor, outras vezes para pior. Na minha opinião é importante aprendermos com o passado, não apenas com os erros: também é preciso considerar as decisões boas que tomámos, para evitar que o mau se repita e assegurar que o bom torna a acontecer. Acredito nisto. Por outro lado, julgo que é contraproducente e errado que nos limitemos a contemplar o passado, esperando que venha daí a solução para todos os nossos males.

O “choradinho” vende, como o comprovam as audiências de certos programas e as vendas de determinados jornais. No entanto o “choradinho” não resolve nada, pelo contrário: limita-se a sublinhar uma situação já de si má. As emoções são como doenças sexualmente transmissíveis: se não forem contidas, propagam-se ad eternum. Isto funciona tanto para o bom, como para o mau. Pessimismo gera pessimismo e enquanto insistirmos em ceder ao lamento nunca sairemos da cepa torta.

Não quero com isto dizer que basta acreditar que podemos estar bem para que isso se torne realidade. Sei que isso não é solução, mas é o princípio para que coisa possa começar a funcionar. O nosso grau de sucesso para a resolução de um problema é tão grande como a nossa predeterminação para o resolver. O psicólogo América Baptista afirma que “quando compreendemos algo, temos o problema resolvido, mas não é assim. Além de o compreendemos, temos de executar manobras de um modo repetido para não voltar a acontecer.”

Sempre fomos um povo de saudade, de olhar para o horizonte à espera que viesse a salvação. Ainda hoje há quem, num dia de nevoeiro, fique a pensar que poderá ser dessa que aparece o D. Sebastião. Faz parte da nossa matriz genética, eu sei. Somos velhos do Restelo a olhar para ontem e quando olhamos para o futuro só vemos o resultado final. Não pensamos no que é preciso fazer para lá chegar.

Por essa razão não gosto de invocar nomes, emblemas, siglas, ou o que seja para falar de tempos que foram melhores que este. Olho com descrença a referências vãs pois não sinto convicção de quem as faz; apenas noto a capacidade de reproduzir sons.

É impossível mudar o passado, mas talvez possamos deixar de olhar para ele com saudade e passar a olhar para ele com atenção. Embora eu não consiga dizer se o futuro vai ser melhor que isto – poderá ser bem pior do que alguns julgam – precisamos de ter uma visão proactiva sobre as coisas. De outra forma, vamos continuar sempre na mesma senda.

Não obstante o símbolo da saudade ter sido eleito património imaterial da humanidade não é aí que vamos encontrar ajuda. Podemos encontrar alívio, podemos encontrar alguma boa música, mas não vamos encontrar uma saída. Dizem que é um motivo de orgulho, mas só quem ganha a vida à conta disso é que sai beneficiado da manutenção deste saudosismo.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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