ângulo #8: A INVERSÃO DO ÓNUS DA COISA

No dia 25 de Maio, na cidade de Houla, na Síria, o exército sírio assassinou 108 pessoas, 32 dos quais eram crianças. Esta notícia não é nova, já deu na televisão, já saiu no jornal, mas as reacções que pretendo analisar aqui são.

Este acto, indubitavelmente um acto criminoso, recebeu o mais sério repúdio desses dois grandes bastiões da democracia e dos direitos humanos que são (deixem-me ver aqui nos apontamentos… cá está!) a China e a Rússia.

(Peço desculpa. Devo ter visto mal. Só um momento… Afinal, parece que não me enganei.)

Sim, a Rússia e a China condenaram este massacre de forma muito veemente. Pequim apelidou estas matanças de “cruéis”, por oposição às matanças de comiseração. “O Governo tem a principal responsabilidade pelo que está no país”, foram as palavras do Primeiro-Ministro… ou é Presidente?, agora perdi-me, Vladimir Putin. Tá giro, tá. É certo que não sou nenhum especialista em relações internacionais do calibre de um Nuno Rogeiro ou de um Nuno Rogeiro com outro penteado, mas até eu sei que a China e a Rússia falarem de direitos humanos, hum… não me cheira. Não é falar mal: as coisas são como são.

Mas se formos a ver bem, este tipo de declarações, mesmo de quem vêm, já não deviam causar estranheza a ninguém. Não digo isto por ser habitual que as maiores críticas venham de quem faz igual ou pior, mas sim porque chegámos a uma fase em que a China e a Rússia defenderem os direitos civis já não é um acto hipócrita. O que se fez… Esperem só um pouco que vão adorar esta… Foi fazer uma espécie de inversão do ónus da coisa. Como era difícil… Quem é que eu quero enganar? Como era impossível fazer a Rússia, a China e tantos outros países mudarem de atitude, optou-se por criar um novo paradigma em que o seu comportamento deixa de ser criticável e passa a ser aplaudível. E isto, em linguagem de pessoas, quer dizer o quê? Quer dizer exactamente aquilo que eu disse.

Como é que este paradigma começou? Poucos dias depois deste massacre, Robert Mugabe, Presidente do Zimbabwe, e outro grande emblema dos direitos humanos, foi escolhido pelas Nações Unidas como um dos seus líderes para o turismo. Se for turismo do género dos filmes Hostel tudo bem, de outra forma não estou a ver.

(Esperem. Há aqui qualquer coisa que está a faltar.)

«A UNWTO [World Tourism Organization da ONU] defende-se dizendo que não ofereceu a Mugabe nenhum título oficial. “O correcto é dizer que a UNWTO apresentou a ambos os presidentes uma carta aberta em que lhes pede para apoiarem o turismo como forma de crescimento sustentável nos seus países com o objectivo de beneficiarem os seus povos”, indicou a coordenadora de comunicação da UNWTO, Sandra Carvão, que é portuguesa.» , in Público

Três coisas a dizer sobre este clipping. Primeiro: Sandra Carvão? Segundo: o que é que pretendem dizer ao salientar que ela é portuguesa? Sim, nós portugueses recebemos o Khadafi e o Mugabe e até teríamos recebido cá o Hitler se ele fosse vivo e todos seriam bem recebidos porque nós somos pessoas que gostam de receber bem. E sim, nós portugueses também condenámos esses senhores, a partir do momento em que o resto da comunidade internacional começou a criticá-los também. E depois? E terceiro: Sandra Carvão?

Seja oficial, ou apenas oficiosa, temo que a indicação de Robert Mugabe para esta posição possa vir a ser um princípio de algo surrealmente mau. Depois desta, que tal designarem Vladimir Putin para representante das Eleições Livres e Transparentes, Hu Jintao para representante dos Direitos dos Trabalhadores, Mahmoud Ahmadinejad para representante da Igualdade Entre os Sexos, Omar Hassan Al Bashir para Representante do Combate à Xenofobia e José Eduardo dos Santos para representante da Luta contra a Corrupção dos Estados? Não existem estas categorias? Criem-nas. Se for para dar o justo prémio a quem o merece, nenhum esforço é demais.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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