off-date #5: APONTAMENTOS DO 10 DE JUNHO

Pontualmente, existem momentos em que, inebriados pelos vapores da felicidade que se fazem sentir neste nosso paraíso à beira-mar plantado, é preciso alguém que nos alerte para o real estado das coisas. Portugal tem dos melhores vinhos do mundo e uma consequência disso é os portugueses acharem que está tudo bem. A economia está uma maravilha; as finanças funcionam de forma eficaz cobrando o devido a quem de direito; a justiça é célere e exemplar, mas não draconiana; a cultura e a educação prosperam e a questão das pescas é uma questão do passado. Ah! E não há desemprego. É nisto que todos acreditam. Vem então o presidente Cavaco e atira-nos um balde de água gelada – tão gelada que mais parece um bloco de gelo – à cara.

No passado dia 10 de Junho, Cavaco Silva fez o que compete a um presidente da República: alertou os seus cidadãos para o perigo do desemprego a nível europeu vir a tornar-se “socialmente insustentável”. Houve quem pensasse que se tratava de uma gafe, de um dito jocoso. Mas não era: Cavaco Silva estava mesmo a falar da existência de desemprego, não apenas na Europa, também – pasme-se! – em Portugal. Sim, caro leitor! Ao que parece, Portugal enfrenta níveis de desemprego altíssimos. Há mesmo quem afirme (embora na minha opinião, isso sejam mais lamúrias de profetas da desgraça do que outra coisa qualquer) que Portugal está numa situação de dependência estrageira. Como se isso fosse possível, não é verdade? O desemprego ainda consigo acreditar; a perda de autonomia financeira… não me lixem.

Voltando ao discurso do presidente Cavaco, além de servir como alerta para uma situação da qual não tínhamos qualquer conhecimento, possuiu muitos outros momentos dignos de registo. Eis alguns e respectivo comentário (as minhas desculpas se, por vezes, parecer mordaz):

É urgente passar das palavras aos atos e adotar novas políticas de emprego, quer à escala europeia, quer à escala nacional.”

Em primeiro lugar, a expressão “passar das palavras aos atos” é muitas vezes dita, mas poucas vezes executada. Na verdade, enquanto se limitarem a urgir à acção, não estão de facto a fazer nada. Por outro lado, é de notar também que Cavaco Silva refere primeiro a adopção de novas políticas de emprego a nível europeu, e só depois cá. É esperto o Aníbal. Se resultar lá fora, aplicamo-las cá dentro; se não, pior para os outros, melhor para nós!

É necessário conjugar a dimensão orçamental com medidas destinadas a criar condições propícias ao crescimento competitivo e a promover o emprego e a justiça social.”

Esta frase, lamento dizê-lo, é muito bonita, mas não significa absolutamente nada. Ou bem que se conjuga a dimensão orçamental, ou bem que se criam condições propícias ao crescimento competitivo. Não dá para poupar e investir ao mesmo tempo. Podemos poupar e depois investir. Ao mesmo tempo não. E para promover o emprego e a justiça social? Porquê os dois separados? Cada um de nós ter o emprego que merece não é socialmente justo o suficiente? Não estamos a falar de justiça de tribunais, essa é outra história, estamos a falar de justiça social: emprego, alimentação, abrigo, educação, saúde. A justiça social é uma consequência de se ter emprego, não é um ganho à parte.

É preciso uma trajectória de crescimento económico e de melhoria das condições de vida das populações.”

Certo. Quais populações? Todas? Aquelas que mereciam ser beneficiadas? Aquelas que são habitualmente beneficiadas? É a velha questão de agradar a gregos e troianos. A população rica, apesar de estar em minoria quantitativa, não tem muito que se queixar quanto às condições em que vive. Mesmo que as coisas não estejam tão bem como antes estavam, para eles continuam melhor do que para o resto da população. Se o presidente Cavaco estiver a falar de melhorar as condições de vida das populações mais carenciadas, “é urgente passar das palavras aos actos”, como o próprio afirmou. Todavia, se estiver a falar de melhor as condições de vida das populações mais ricas, temo perguntar – sem ser o regresso oficial à escravatura, não esta dissimulação que temos – que propostas terá o presidente para apresentar?

O combate à falta de emprego, sobretudo entre os mais jovens, deve estar no topo das prioridades da agenda social europeia.”

Discordo. Em vez de nos focarmos no combate à falta de emprego, seja ele entre jovens, adultos ou gerontes que ainda não atingiram a idade da reforma, devemos antes concentrar-nos no combate pelo desemprego. Uma empresa abre concurso para um cargo qualquer e os candidatos vão lutar para uma arena, tipo gladiadores. O que sobreviver fica com o emprego. Os restantes não ficam com o emprego, mas também não têm de se preocupar mais com isso. Parece uma ideia idiota? É porque ainda não a expliquei toda.

Os combates na arena poderão ser assistidos ao vivo ou através de serviço de televisão pago: uma espécie de EuroNews2, ou EuroFightChannel, se preferirem. Quem quiser ir à arena ver as candidaturas, paga 15€ de entrada, em casa paga 10€ pela subscrição do canal. O dinheiro recolhido – a julgar pela atracção que o ser humano tem por espectáculos violentos não deve ser coisa pouca – será usado para investir em empresas viáveis, assim como para financiar a criação de novas empresas e subsequentes novos postos de trabalho.

A imprescrindível consolidação orçamental não constitui um valor em si mesmo.”

Falavam dos discursos do Sampaio, só que ele disse a mesma coisa de forma muito mais simples: “Há vida para além do défice.” Para quê complicares, Aníbal? E ainda por cima contradizes-te. Como é que algo pode ser imprescrindível e não constituir qualquer valor? Imprescrindível é algo que é básico, essencial, fundamental, obrigatório mesmo. Em vez de consolidação orçamental, experimenta dizer respiração. “A imprescrindível respiração não contitui um valor em si mesmo.” Ai não? Então experimenta deixar de respirar.

O que é que estás a fazer? Pára! Era só um exemplo! Bolas, que tu levas tudo à letra…

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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