Publicação de conto: A LIÇÃO

No início deste ano a Editora Draco lançou um concurso de contos para publicação de uma antologia de super-heróis. O meu conto A LIÇÃO foi um dos 111 candidatos. Apesar de não ter sido um dos seleccionados, os responsáveis da antologia gostaram bastante da história e contactaram-me no sentido de publicá-la a solo.

Darei mais novidades assim que eu próprio as tiver. Por enquanto, fiquem com o início do meu mais recente conto.

LIÇÃO

Joel G. Gomes

O Destino não olha a idades, só a caracteres. Foram estas as últimas palavras que saíram da boca daquele estranho humanóide antes de este fechar os olhos e quinar. (Sei quequinar é uma palavra pouco elegante e acreditem que não seria a minha primeira opção, só que não me ocorre melhor de momento. Peço desculpas pela deselegância, mas eu estou a ser perseguido por um bando de arruaceiros e não tenho tempo para parar e consultar um dicionário. Não obstante este meu discurso pouco trabalhado, espero que não seja isto que vos faça abandonar esta história. Se tiverem de abandoná-la, que seja só no fim.)

Lembrei-me agora, vá-se lá saber porquê, que, se isto fosse um filme, esta seria aquela altura em que aconteceria um freeze-frame e eu enfrentaria a câmara para contar como tudo começara. Estaria seguro porque estariam todos em animação suspensa e eu teria tempo mais que suficiente de contar a minha história. Não sendo isto um filme, vou continuar a…

O quê? Quer mesmo saber como tudo começou? Não me leve a mal, mas agora não me dava jeito nenhum. Pois… Há mais alguém interessado? A senhora? E você de óculos, também? Pronto. Eu conto. Deixem-me só encontrar um sítio bom para me esconder… Mas tem de ser rápido. Nada de perguntas, está bem?

* * *

Ia eu tranquilo da vida, entretido com o misterioso colar que aquela estranha criatura me deixara como herança, prestes a virar a esquina, quando dei de caras com três bullies lá da minha escola. Eu sei que o bullying está na moda, mas não julguem que me estou a servir desse elemento para tornar a minha história mais apelativa e actual. Acreditem que, se dependesse de mim, passaria bem sem isso. Falta ainda dizer que sou aluno numa escola secundária no Barreiro. Não vou dizer qual para não gerar discussão. Entrei há duas semanas para Biologia e sim, estou a gostar. Tenho 15 anos e chamo-me António Maria. Eu sei. O nome também não ajuda nada. E o acne e os óculos ainda menos. Ainda se os óculos fossem de um daqueles modelos estilosos… Nem isso!

As aulas ainda mal haviam começado e eu já tinha um lugar reservado nos corações negros daqueles três arautos de Belzebu. É um exagero, eu sei. Que posso eu fazer? Sou eu quem leva calduços. Ao menos deixem-me pintá-los como as criaturas do Mal que eles são. (Apesar de ele ser o Príncipe do Mal, não desejo a Lúcifer este tipo de companhia.)

Onde é que eu ia? Ah! Eu sou um daqueles tipos cuja única justificação necessária para levar nas orelhas é o facto de as ter. Só isso. Não que eu tenha orelhas grandes – por sorte, Deus não me castigou com mais essa. (Digo isto, a acreditar que Deus possa ter tido alguma coisa a ver com o meu aspecto físico. Se teve, não deve gostar muito de mim. Ou estava zangado nesse dia, não sei.) Voltando às minhas orelhas, a única razão necessária para eu levar chapadas e beliscões nelas é, como já disse, a sua existência. Só isso. A ocasião faz o bully, como se costuma dizer. Quer dizer, não é bem assim que se diz, mas vocês percebem. (Ocorreu-me agora que se não tivesse mesmo orelhas, essa seria também uma boa razão para os bullies me darem calduços.)

Desta vez, para ajudar à festa – a deles, não a minha – eu trazia um vistoso colar ao pescoço. Na verdade, penso que não era bem um colar; era mais aquilo a que as mulheres chamam de gargantilha. Uma gargantilha no pescoço de um homem é um pechisbeque que, já de si, não fica bem. E pior fica se for em rosa-choque como aquela que eu trazia. Este caso grave torna-se ainda mais grave quando quem a traz é alguém que torna esse tipo de adorno num equivalente a apito de cães para bullies. A grande diferença, no caso da gargantilha, é que todos podiam escutar esse apito. (Nada mau como metáfora para quem está a ser perseguido, hã?)

Ia então eu a virar a esquina quando me deparo com o tal trio. Assim que eles me vêem, eu, antecipando o pior, dou meia volta e começo a fugir. Eles, acto natural, desatam a correr atrás de mim. (A expressão desatam a correr também não é das mais elegantes. Já disse que tenho três rufias a perseguir-me, não já?)

E pronto. Foi assim que tudo começou. Podemos voltar à parte onde estávamos e conti- O que foi agora? Querem saber mais sobre o colar e sobre a criatura que mo arranjou? Tem mesmo de ser? (Suspiro.) Que seja… Ah!, antes que me esqueça, não é colar, é gargantilha. Prestem um pouco de atenção ao menos, sim?

(continua)

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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