ângulo #7: A SENHORA PITOSGA AGORA É MOUCA

Antes do odor nauseabundo que emana do Caso Relva e seus derivados, já me sentia afectado pelo fedor que tresandava das alegadas escutas ao ex-Primeiro-Ministro José Sócrates. Em ambos os casos, e outros que não vêm agora a propósito, aquilo que me incomodava mais era a incerteza. Falava-se – e ainda se fala – muito, mas a verdade é que se sabe muito pouco. Nunca gostei de incertezas; bom ou mau, sempre gostei que me contassem tudo sem rodeios. Às vezes custa, mas mesmo quando custa podemos pôr uma pedra no assunto e seguir em frente.

Depois de tanto tempo a bailar nos tribunais vai ser, finalmente!, terminada a ligação de José Sócrates ao Caso Face Oculta. As escutas que alegadamente implicavam o então Primeiro-Ministro em negócios de controlo da comunicação social vão ser destruídas por ordem de Noronha do Nascimento. Pelo que li em alguns jornais, a justificação para esta decisão teve que ver com o facto de quem investigava o caso não ter informado logo que José Sócrates podia estar envolvido assim que o seu nome surgiu. Parece-me uma justificação plausível, embora não seja, de longe, a mais plausível de todas.

Eis outras hipóteses:

– as escutas vão ser destruídas porque foram gravadas em k7 e já ninguém usa disso;

– as escutas vão ser destruídas porque a descoberta do possível envolvimento de José Sócrates foi feita numa sexta-feira 13, o que pode dar azar;

– as escutas vão ser destruídas porque a senhora que fazia as transcrições apanhou uma tendinite e teve de pôr baixa;

– as escutas vão ser destruídas porque já foram todas parar ao Youtube;

– as escutas vão ser destruídas porque José Sócrates está em França e não lhe dá jeito vir a Portugal por coisinhas de cacaracá;

– as escutas vão ser destruídas porque sim e não há mais discussão

Brincadeiras à parte, fico contente que esta decisão tenha sido tomada. Não, não estou a brincar, estou a ser o mais lógico possível. Alguém acha que isto ia dar alguma coisa? Sejam honestos. Se as escutas fossem usadas e Sócrates fosse constituído arguido, das duas, uma: ou o caso prescrevia, ou era absolvido. Mais provas houve para condenar certos autarcas e ei-los à frente dos seus municípios. Assim, ao menos, não se gastou tempo nem dinheiro. Foi um julgamento célere – como a Troika quer que passem a ser todos –, tão célere que nem o chegou a ser.

Sabemos (especulamos, isto é) o que teria acontecido se as escutas não fossem destruídas; mas o que teria acontecido se os investigadores tivessem informado os seus superiores de que o Primeiro-Ministro podia estar envolvido em moscambilhas? Penso que a situação seria mais ou menos esta:

“Eh pá Tó, já ouvistes isto, pá?”

“Hein! É o Socras! Granda bronca! Eh pá, temos de avisar o chefe!”

“Tens razão. Vamos já fazer isso, não se vá dar o caso de esta descoberta importante não ser depois aproveitada porque não a denunciámos a tempo e horas.”

(…)

“Está lá? É o chefe? Olhe, passa-se isto assim e assim, de maneiras que o Primeiro anda metido na jogada.”

“Isso é muito grave. Vou já informar o Procurador-Geral da República.”

(…)

“E por isso achei que era meu dever informar Vossa Excelência o mais depressa possível.”

“Fez muito bem, chefe. Fez muito bem. Vou já tomar as devidas providências.”

(…)

“Tou, Zé? Olha, ligou-me agora o coiso da PJ. Eu sei que deste a dica ao Aníbal para ele me nomear e tal, mas é que eu agora fico numa situação lixada…”

“Se é por causa das escutas não te preocupes. O Cavaco não vai fazer nada. Ele também tem telhados de vidro.”

“Então posso ficar descansado?”

“Podemos todos ficar descansados.”

Foi uma pouco especulação só para desanuviar. Voltemos ao mundo real, onde as coisas são menos… coisas.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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