postigo #6: O MILAGRE DE FÁTIMA

No passado Sábado, enquanto fazia zapping pelos vários canais de séries e de filmes do meu serviço de televisão por cabo, revi um bocado do filme Matrix Revolutions: o último e, por sinal, o mais fraquinho de toda a saga. A trilogia Matrix, escrita e realizada pelos irmãos Andy e Larry (actualmente Lana) Wachowski, começou de forma brilhante com um filme que revolucionou o género e estabeleceu novos paradigmas, mas que desgovernou-se um pouco no segundo e espetou-se por completo no terceiro.

Em Matrix é-nos apresentado Thomas Anderson (interpretado por Keanu Reeves), técnico de informática durante o dia e, à noite, um hacker que dá pelo nome de Neo. Thomas é contactado pelo misterioso Morpheus (Laurence Fishburne) que lhe dá a conhecer uma ameaça que paira continuamente sobre a espécie humana, a qual só ele, Neo, poderá deter.

Inovador nos efeitos especiais e nas cenas de acção, o filme deu origem a duas sequelas, vários jogos de vídeo, comics, curtas-metragens em anime e diversos artigos e livros sobre alguns dos temas mais filosóficos apresentados no filme.

Um desses temas é-nos apresentado quando Morpheus conta a Neo o que é o Matrix. Pesem algumas incorrecções científicas, Morpheus explica que tudo aquilo que os nossos sentidos experienciam corresponde a impulsos eléctricos que são interpretados pelo nosso cérebro; assim, o que o Matrix faz é criar falsos impulsos, de modo a convencer-nos de que estamos a ver e a sentir coisas que não existem realmente.

A ideia de associar estímulos a sensações já havia sido testada pelo cientista russo Ivan Pavlov que, na década de 20 do século passado, formulou a teoria do reflexo condicionado. A experiência de Pavlov era muito simples na sua concepção, mas foi altamente revolucionária nos seus resultados. A descrição mais habitual da experiência diz que Pavlov tinha alguns cães e fazia sempre soar uma campainha imediatamente antes de lhes dava comida. Com o repetir, Pavlov observou que, ao escutarem a campainha, os cães começavam a salivar por saberem que, a seguir àquele som, vinha a tão desejada comida. Pavlov resolveu experimentar só fazer soar a campainha e concluiu que os cães reagiam sempre ao estímulo, mesmo que não houvesse qualquer compensação depois.

Esta é uma descrição muito rudimentar de uma experiência que, à semelhança do primeiro filme da saga Matrix, também estabeleceu novos paradigmas. As experiências de Pavlov, não só viriam a desmistificar várias noções erradas e arcaicas sobre o comportamento humano como, também, serviriam de base para o behaviorismo de Watson.

O comportamento humano tem sido estudado e explorado, não só pelos cientistas, mas também – talvez mais ainda – pela indústria do audiovisual. Seja na televisão, seja no cinema, o que se pretende é proporcionar uma experiência de entretenimento inesquecível. Quando a tecnologia não o permitia, tentava-se proporcionar essa experiência com bons enredos, bons diálogos e boas interpretações. À medida que a tecnologia foi avançando e os efeitos visuais se tornaram cada vez mais sofisticados, ao ponto de se poder replicar qualquer ideia, ganhou-se em termos estéticos, mas perdeu-se em termos narrativos. É certo que isto não acontece com todos: são muitos os filmes e séries que se servem de espantosos efeitos visuais, não para disfarçar falhas da história, mas para aprimorá-la. Infelizmente, também são muitos os casos em que o inverso acontece.

Depois de desenvolvere novas formas de mostrar uma história, a indústria do audiovisual passou a procurar novas formas de ver a história e assim surgiu a projecção a três dimensões. Hoje em dia é raro o filme que não estreia com uma versão em 3d; qualquer dia serão raros os filmes em 2d, visto que começa a haver uma corrida ao upgrade desnecessário de filmes antigos. Sedentos de mais alguns dólares, produtores e realizadores procuram dar novas roupagens que nada acrescentam à qualidade que muitos filmes já (de si não) têm.

Tal como aconteceu com os efeitos visuais, o desenvolvimento da tecnologia 3d começa a ser também uma desculpa para colmatar falhas narrativas. Crê-se, erradamente, na minha opinião, que a espectacularidade das cenas distrai o espectador das incongruências das mesmas. É possível que sim em alguns casos, porém não o será em todos.

Em paralelo com o desenvolvimento destas tecnologias de enhancement visual – sem esquecer também o desenvolvimento dos sistemas de som, entre eles o dolby-surround – foram também exploradas outras possibilidades destinadas a proporcionar sensações de entretenimento mais plenas aos restantes sentidos e assim surgiu o cinema 4d.

Inicialmente utilizada em projecções realizadas em parques de diversão, em que esguichos de água, ar e cheiros vários eram utilizados para complementar o que se via no ecrã, depressa se transportou esta tecnologia para as salas de cinema ditas “normais”. A partir desse momento – e perdoem-me a escatologia do exemplo –, sempre que um personagem solta um peido, passou a ser possível sentirmos o cheiro.

As melhorias ao nível dos sentidos tornam a experiência de ver um filme mais completa. Mas torná-la-ão mais rica? É possível que, em alguns casos, sim. Contudo, se tais apetrechos servirem para se poupar algum dinheiro na escrita e nos actores, tenho as minhas dúvidas de que vá resultar. No futuro, temo mesmo que possam acontecer diálogos deste tipo:

“Há lá uma cena em que o gajo desata a cortar os outros com o cortador de relva e parecia mesmo que o sangue ‘tava a espirrar para cima da gente! E cheirava mesmo a sangue e relva! Quando cheguei a casa até pus a roupa para lavar e tudo!”

“E a história? Era gira?”

“Eu sei lá.Não fui lá pela história.”

É uma visão triste, mas perigosamente realística.

Feita que está esta longa introdução, deixemos, por agora, o mundo do «faz-de-conta» para nos concentrarmos um pouco em Fátima. Quase um século após as chamadas “aparições”, a Igreja decide, finalmente, entrar no século XXI. Infelizmente, essa actualização é feita somente num nível muito superficial; não esperem grandes reformas tão cedo.

“O Milagre de Fátima”, um evento multimédia que visa recrear as aparições através de hologramas, sons e cheiros, é inaugurado hoje e espera-se que venha a ser mais uma grande atracção dessa zona grande comercial, perdão, religiosa, portuguesa. Custeada em cerca de um milhão de euros, dos quais 75% provenientes de fundos comunitários, eu, como ateu residente numa Europa em crise, pergunto-me se será esta a melhor forma de empregar dinheiros europeus? Estará a fé das pessoas a decrescer e isto é uma maneira de voltar a cativá-las? Ou servirá isto para atrair novos fiéis, pessoas que antes não acreditavam, mas, agora que Nossa Senhora vai passar a cheirar a azeite virgem, vão começar a acreditar?

Costuma-se dizer que quem está de fora tem sempre outra perspectiva das coisas. Em parte, isso é verdade: como ateu, tenho uma perspectiva diferente, mais pessimista, disto. Sei que nunca vou conseguir avaliar esta questão do ponto de vista de um crente porque não partilho desse handicap. Entenda-se que quando falo em crentes depreciativamente, falo em crentes de massas, o típico carneirinho que age e fala sem pensar pela sua cabeça. Não é por ser ateu que olho para os crentes como pessoas menos inteligentes que eu: alguns são, sem dúvida; outros nem por isso. Neste caso d’ “O Milagre de Fátima”, só posso especular quanto ao que passará pela cabeça dos fiéis que forem assistir a isto. Irá o excesso de estímulos fazê-los acreditar ainda mais? Ou será isto o último sopro que faz o balão rebentar? A gota que faz o copo transbordar?

Em muitas histórias de ficção científica, assim como em vários livros de especulação histórica – sobre a Atlântida e outras civilizações míticas, por exemplo –, é explorada a teoria de que aquilo que é descrito na Bíblia e outros livros religiosos como milagres, mais não são do que meras demonstrações de uma tecnologia avançada. Verdade ou mentira, é fácil acreditar nisto se fizermos o seguinte exercício mental: imaginem o que seria alguém passear de carro pelas ruas de Jerusalém de há dois mil anos atrás a ouvir música e a falar ao telemóvel. De que forma é que as gentes dessa época registariam essa imagem? Por não conseguirem definir em concreto o que viam, acabariam por fazer uma descrição por aproximação. Não estou a dizer que acredito que isto tenha acontecido, apenas que faz sentido neste tipo de exemplo.

Designar como divino aquilo que não se consegue explicar faz parte da natureza humana, porque temos a arrogância de acreditar que não há espécie mais avançada que a nossa. É possível que não haja, assim como é possível que haja: ninguém sabe ao certo. O que importa aqui reter é que a religião e a ciência sempre estiveram ligadas. Durante séculos, a religião encarou a ciência como uma heresia: qualquer coisa que puxasse um pouco o “véu” que cobria as mentes dos crentes e os ajudasse a pensar por si mesmos era visto como uma heresia. Passados tantos séculos, e ainda com muito por se redimir, a Igreja Católica, numa execução tosca do ditado popular “se não os podes vencer, junta-te a eles”, faz uma aliança com a ciência. Grandes homens da ciência foram também grandes crentes, como foram os casos de Galileu, Newton, Morse, Pasteur, Edison e tantos outros. A crença em Deus não significa ter “vistas curtas”, conforme expus mais acima, e estes homens são o exemplo perfeito disso. Este tal “Milagre de Fátima” que começa hoje poderia ser algo de novo. Uma aliança entre a religião e a ciência seria certamente uma boa notícia para todos nós se fosse usada para um fim positivo. Ao invés é apenas um aditivo que se coloca num produto artificial.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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