ângulo #6: O GATO DE CRATO

No início desta semana, no decorrer dos trabalhos realizados na Comissão de Educação, o ministro Nuno Crato disse não fazer “puto” de quantos professores contratados ficarão sem colocação no próximo ano lectivo; acrescentando que “é fatela a malta ‘tar a dizer que vão ser  bués” quando, segundo o próprio, “vão ser só uma beca”.

Bom, para ser honesto, embora pudesse tê-lo feito, Nuno Crato não manifestou o seu desconhecimento em relação a esta matéria exactamente desta forma. Na verdade, quando questionado quanto aos receios de que esse número pudesse ascender às dezenas de milhar, Nuno Crato limitou-se a apelidar esses receios de fantasiosos.

Mas serão mesmo?

Em 2011, segundo dados do Ministério da Educação, ficaram por colocar 37 mil docentes; em 2010, ficaram perto de 30 mil; em 2009, cerca de 40 mil. (Note-se que estes são números referentes à primeira fase das colocações.) Ora, eu não sou Matemático, mas consigo perceber uma assim não tão ligeira semelhança entre estes três números: todos são dezenas de milhar. Eu quero, ou melhor, eu gostaria de acreditar que o trabalho desenvolvido por Nuno Crato e seus discípulos produzirá resultados miraculosos ao nível da colocação de professores, mas tenho as minhas dúvidas.

Enquanto Matemático, Nuno Crato é tido como um investigador eficaz e eficiente: características que, enquanto ministro da Educação, poderão vir a ser o seu calcanhar de Aquiles. Ou seja, por muito bom que seja, Nuno Crato não consegue fazer uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo.

Sobre a possibilidade do número de professores não colocados ascender às dezenas de milhar – como tem acontecido nos últimos três anos – Nuno Crato disse que isso era uma fantasia. Porém, não há muito tempo, o mesmo Nuno Crato defendeu o aumento do número de alunos por turma. Torno a dizer que não sou Matemático, mas quer-me parecer que mais alunos por turma significará menos professores.

Ou será que não?

Com as reformas introduzidas no sistema de ensino nestes últimos anos, às vezes, é mais o tempo que o professor gasta a desempenhar tarefas burocráticas e administrativas do que a leccionar. Desconheço o que futuro nos reserva, mas arrisco dizer que podemos estar perante uma nova estrutura de aula: turmas grandes, mas com um professor diferente por dia.  Ou turmas ainda maiores, com um professor por aluno. É claro que a atribuição de um professor por aluno teria de ser sustentada, em parte, pelo Encarregado de Educação do aluno; em caso de incumprimento das obrigações financeiras, a avaliação do aluno ficaria em suspenso até a situação ser normalizada. Tudo especulação, claro.

Confesso que não faço ideia de como é que Nuno Crato vai conseguir atingir dois objectivos que se anulam. Tudo bem que ele, tal como eu, não é Físico ou Químico, mas ele há de saber tão bem como eu que o mesmo corpo não pode estar em dois estados ao mesmo tempo, a não ser em teoria. Faz-me lembrar o paradoxo do gato de Schrödinger: um enigma mental que consiste na colocação de um gato dentro de uma caixa selada, em que a vida ou morte do bicho depende do estado de uma partícula subatómica. Enquanto a caixa não for aberta, o gato está vivo e morto em simultâneo.

Tanto quanto se sabe, Schrödinger nunca terá, de facto, colocado um gato numa caixa. Pelo menos não o terá divulgado publicamente. Se calhar porque, ao tentar realizar a experiência, apercebeu-se que era praticamente impossível concluí-la. Por mais investigações e estudos que fizesse, os resultados nunca seriam absolutos: seriam apenas probabilidades. Pode ser que Nuno Crato pretenda replicar esta proposição de Schrödinger, aumentando a colocação de professores, ao mesmo tempo, que diminui a necessidade dos mesmos.

Tenha ou não sucesso na sua experiência, uma coisa é certa: já se demarcou dos seus antecessores. Ao contrário destes, Nuno Crato não defendia uma política de ensino antes de estar no Governo e uma outra política de ensino, totalmente antagónica à primeira, depois de ser nomeado ministro da Educação. Nuno Crato cumpre essa obrigatoriedade política que é defender uma coisa e o seu contrário, esteja ele no Governo ou fora dele. Parecendo que não, é uma medida inovadora. No futuro, se o PSD voltar a ser oposição e Nuno Crato aceitar ir para deputado ninguém lhe vai poder dizer: “O senhor deputado Nuno Crato, agora diz uma coisa, mas quando esteve no Governo dizia exactamente o contrário.” Ninguém.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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