postigo #5: CORAGEM

A solidariedade pública precisa de um nome, de um rosto, para ser accionada em massa. Não recolhemos tampinhas para ajudar uma pessoa que não conhecemos, recolhemos para ajudar o Rúben André a ter uma cadeira de rodas nova. Não fazemos doações de sangue ou de medula para que isso possa vir a ajudar alguém no futuro, fazêmo-lo para ajudar o André, a Sandra e o Pedro que precisam disso agora. Ajudamos, não só por ajudar, mas para podermos dizer QUEM é que ajudámos. Não queremos dizer que ajudámos um ALGUÉM indeterminado, queremos dizer que ajudámos ESTA ou AQUELA pessoa. E, se possível, anexar uma fotografia para que não restem dúvidas quanto ao nosso altruísmo.

Esta vontade de mostrar que se gosta de ajudar – tanto ou mais que ajudar de facto – estende-se, por vezes, aos jornais e às televisões. Em certos casos, no jornais mais comummente, a divulgação faz-se por ser “alguém da terra”; noutros, por existir uma ligação, ainda que ténue, com uma qualquer figura pública de relevância discutível. Estou a apontar somente os casos negativos, embora também hajam os casos positivos, em que o que se pretende é ajudar sem receber por isso quaisquer dividendos.

Exponho aqui o lado negativo, o lado sensacionalista, destas ajudas para poder abordar um aspecto mencionado sempre que se fala com os pais destas crianças. Não importa o problema que o filho tem, ou a sua idade, o discurso destes pais é sempre o mesmo; naturalmente pautado pela dor e pelo medo, mas não só. Existe também o hábito de salientar a coragem que os seus filhos demonstram.

Ora, a criança, no seu estado latente (quando ainda não lhe ensinaram o que é que as coisas querem dizer), é inocente, ingénua e ignorante. Pode saber que padece de uma doença incurável, mas desconhece o que isso realmente significa e age feliz quando a dor assim o permite. Os pais encaram isto como coragem. Não querendo puxar o tapete a ninguém, a verdade é que não se trata de coragem aquilo que estas crianças – a maioria delas, isto é – sentem: é ignorância. A coragem só surge quando, apesar de conhecermos a sorte que nos espera, somos capazes de encarar o Mal que nos aflige e mandá-lo dar uma curva.

Convém salientar que dizer que estas crianças não têm coragem, não é o mesmo que dizer que sentem medo. O medo, à semelhança da coragem, só existe quando há algo para se temer. O medo do desconhecido não nasce connosco: é-nos incutido. O próprio medo do escuro vem das histórias que nos contam, não tanto de experiências pessoais com o sobrenatural ou com outros males mais humanos.

Tenta-se salvar a criança do medo alheando-a daquilo que não conhece porque julga-se que ela não possui defesas tão eficazes como as nossas.. Erguem-se redomas para as proteger, mas essas redomas servem mais como protecção para os adultos. Ao contrário do adulto, a criança tem a capacidade de contextualizar aquilo cujo significado desconhece. E é precisamente por ignorar a gravidade dos males que a afligem que ela não demonstra medo: ao invés, sorri e brinca, e nesses sorrisos, nessas brincadeiras, os pais observam coragem.

Quem lhes dera ser tão ignorantes.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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