ângulo #5: COMO VIVER DENTRO DAS SUAS (REAIS) POSSIBILIDADES

Uma frase que se tem escutado muito desde que a crise começou tem sido “Crise? Qual crise? Ainda não viram nada!” (Se calhar, devia ter escrito expressão em vez de frase para não ficarem com a impressão de que não sei contar.) Outra frase que também se tem escutado muito é “Andamos a viver acima das nossas possibilidades.”

Pois bem, empreendedor como só eu sou, resolvi enumerar uma série de conselhos práticos para que possa viver dentro das suas reais possibilidades. Tratam-se de dicas simples e relativamente fáceis de seguir, mas que requerem alguma dedicação da sua parte. Pense nisto como uma dieta ou uma forma eficaz de deixar o tabaco ou o álcool. (Se for um alcoólico com problemas de obesidade mórbida e enfisema, pense noutra comparação que se lhe adeque melhor.)

A primeira a coisa a saber é: o que é que os outros acham de si? Esta pergunta pressupõe diversas respostas já que as pessoas que gostam de si não terão a mesma opinião do que aquelas que o detestam. Esqueça essas mariquices por agora e concentre-se apenas naqueles que o conhecem de facto e naqueles que o julgam conhecer. Que imagem é que você transmite? Essa imagem corresponde à imagem que tem de si? É isto que você pretende saber.

A finalidade desta busca é perceber que expectativas existem em relação a si. Lembre-se disto: você não vive de simpatias ou de ódios, vive de comida. As reais possibilidades que procura apurar não são as suas: são as dos outros. Se você trabalha na função pública, apenas com o ordenado mínimo, e a sua cara-metade está desempregada, sem direito a subsídio, com casa, carro e outras contas por pagar, mais o luxo da alimentação, nesse caso está claramente a viver acima das suas reais possibilidades. Por outro lado, se você é um advogado ou gestor que factura milhares de euros por mês e, mesmo assim, vai todos os dias buscar almoço e jantar à sopa dos pobres, só está a fazer aquilo que esperam de si.

Apurada que está a imagem da sua pessoa, passemos agora à percepção virtual, ou seja: os seus dados pessoais. Comecemos pelo nome. Se tiver apenas um nome e dois apelidos, ou dois nomes e dois apelidos no máximo, em princípio não terá muito com que se preocupar. Tenha calma. Não deite foguetes antes da festa. Havemos de voltar a este ponto.

Supondo que tem um nome extenso, com oito nomes próprios e onze apelidos, alguns dos quais estrangeiros – bom, aqui não se pode supôr muito: ou tem ou não tem –, o seu caso muda logo de figura. Tantos nomes pressupõem uma certa linhagem e uma linhagem, por mais conspurcada que possa estar, pressupõe posses, leia-se possibilidades. O nome passa de geração em geração: o dinheiro nem sempre, mas a fama de o ter, sim.

Voltando às composições simples de nomes, existem apelidos, e mesmo nomes próprios, que podem pressupôr, se não uma linhagem, pelo menos a existência de posses ou de um contacto próximo e regular com pessoas desse calibre.

Alguns exemplos a ter em conta:

Melo e Mello – em documentos oficiais use sempre apenas apenas um “L” , em CVs use dois. Não importa qual deles é realmente o seu.

de antes do apelido (excepto nos casos em que já se tornou habitual) – dizer João Sousa não é o mesmo que dizer João de Sousa. O de pressupõe uma proveniência; mais uma vez: uma linhagem.

Apelido e apelido – este é o provavelmente é o caso mais evidente em como uma letra faz toda a diferença. Até mesmo os apelidos mais comuns ganham toda uma nova conotação quando unidos por um e. Isabel Maria dos Anjos Faria não soa ao mesmo que Isabel Maria dos Anjos e Faria, pois não?

(Qualquer um destes, e outros exemplos que vos ocorram, só devem ser utilizados caso os possa utilizar a seu favor.)

De que forma lidar com esta questão dos nomes? É simples: adapte-os às circunstâncias. De certeza que possui nomes simples nessa imensidão de nomes pomposos. Esqueça os “Renato”, os “Martim” e os “Vicente” e foque-se nos “José”, “Manuel” e, em casos extremos, “António”. (Para as mulheres: esqueçam “Micaela”, “Erica” ou “Maria Ana” e fiquem-se por “Joana”, “Rita” ou “Ana”.)

Com os nomes o problema é relativamente fácil de solucionar. Em relação aos restantes elementos, a coisa – no sentido genérico do termo – torna-se mais complicada, mas não impossível, de resolver. Olhamos para os seus números – o BI, o cartão de contribuinte, cartão de utente, por exemplo – e depressa vemos que não há nada a fazer aqui; ainda se fossem dados estatísticos talvez pudéssemos moldar esses da forma mais conveniente. Como essa não é uma opção, tem de se limitar a preenchê-los correctamente. Situação semelhante sucede ainda com o seu tipo de sangue.

Onde é possível mexer então? O ideal seria na sua morada. Se não for já esse o seu caso, devia morar numa zona compatível com a imagem que têm de si e não numa zona que seja compatível com as suas possibilidades ou com o seu gosto pessoal. Se mora na Linha, a noção que os outros têm das suas possibilidades dista quilómetros da que teriam se morasse em Rabo de Peixe.

Se não pode mudar o sítio onde vive, convide familiares e amigos, ou mesmo estranhos, a viver consigo. Quanto mais gente, melhor. Demonstre que não tem posses para morar sozinho numa zona cara. (Se lhe for possível passar a escritura da sua casa para o nome de outra pessoa, também é uma boa hipótese a considerar.)

Onde pode mexer, de facto, é nos seus contactos. Se apenas possuir telefone fixo, fique por aí. Se possui telemóvel, em primeiro lugar tenha em atenção qual o operador que escolhe; em segundo lugar veja a que tarifário adere. Não escolha o operador e o tarifário que consegue pagar: escolha aqueles que os outros acham que você consegue pagar. E nivele por baixo. Sempre.

Hoje em dia toda a gente tem email. Mesmo que não possua um computador, é bem provável que tenha uma conta de correio electrónico. Ter uma conta de email é grátis, porém não é isento de tentações. Se está a pensar aderir a um serviço pago só para ter mais espaço e mais velocidade, pense bem se valerá a pena fazer esse investimento. Quanto mais rápido for o serviço e quanto mais espaço de armazenamento ele possuir, de mais velocidade e mais espaço irá você precisar. As nossas necessidades aumentam sempre à medida que aumenta a capacidade de as suplantarmos.

O seu serviço pago nunca será tão rápido, nem nunca terá tanto espaço quanto aquele de que você precisa, por isso é escusado tê-lo. Cancele-o. Invista o tempo que está à espera para que ele anexe um ficheiro ou para que uma mensagem seja enviada noutra actividade. Leia um pouco, por exemplo. Corra à volta da cadeira. O que quiser. Verá que o tempo passa mais depressa. Quanto ao espaço, a solução é ainda mais fácil: abra mais contas.

Mas atenção! Não abra demasiadas. Ou melhor, não divulgue demasiadas. Use uma conta para algumas pessoas, outra conta para outras pessoas e assim por diante. Um conselho: não dê todas as suas contas às mesmas pessoas. Muitas contas podem levar a pensar que tem tempo para dar igual atenção a todas. Daí a pensarem que não faz nada é um instantinho. O mesmo cuidado deve ter no que toca ao nome. Seja o mais simples possível: nome, apelido e ano de nascimento. Qualquer coisa muito elaborada, além do tempo que demora a escrever, poderá levar a pensar que tem demasiado tempo livre para pensar nessas coisas. O mais certo é estar a pensar nisso quando devia estar a trabalhar.

Em resumo, o que é afinal viver dentro das nossas possibilidades? É aparentar uma coisa e ser outra? É viver de acordo com o que conseguimos ou conforme o que os outros acham que nós conseguimos? É ter dinheiro e ir à sopa dos pobres? É passar fome e ter um smartphone? É ter nome de barão e não ter um tostão? Ou é ter um carrão e em casa só comer sopa e pão?

É tudo isto e mais, porque as nossas reais possibilidades não existem. São uma farsa imposta pelo resto da sociedade. Tal como num serviço de correio electrónico pago, quanto mais a sociedade tem, quanto mais a sociedade pode gastar, mais aumentam as nossas reais possibilidades; quando, na verdade, as nossas reais possibilidades são cada vez menos.

Alguém escreveu e o Herman José disse: “Para as Finanças, qualquer pessoa é podre de rica até prova em contrário. O rico, como é rico, pode pagar a um contabilista para provar que ele, coitadinho, não é rico, é praticamente pobre. O pobre, como não pode pagar a um contabilista, leva ali com uma carga fiscal que até anda nas horas.”

(As minhas desculpas ao autor do texto parafraseado, mas estou a escrever isto de memória. Tendo em conta os anos que já se passaram, diria até que a minha memória está muito boa.)

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Ângulos com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s