postigo #4: O INVERSO DA MODA

A escassez e a abundância é que fazem com que o vulgo classifique as coisas de preciosas ou sem valor.”

Galileu Galilei

Sexta-feira, fim de tarde, por volta das 19h20. Atravesso eu o Terreiro do Paço quando me cruzo com várias pessoas, das quais algumas locais e outras tantas turistas; em comum: todos eles, na sua maioria, usam calças (ou calções, que o tempo já começa a estar quente), t-shirts e camisas de tecidos e padrões convencionais. Em suma, roupas normais. (Pese embora o facto de que aquilo que é normal para uns nem sempre o é para outros.)

A sociedade habituou-se a chamar moda – ou tendência,como os profissionais da área gostam de utilizar – a tudo aquilo que é constituído como norma pela maioria. O problema é que isso não acontece. Nunca. Em nada. No caso da roupa, por exemplo, a alta costura não chega cá abaixo a nós, comuns mortais. Pelo menos, não como trajes que se usem no dia a dia. Se essas vestimentas estão na moda não seria lógico que todos as utilizássemos? Como se pode chamar tendência a algo a que só uma pequena percentagem da população tem condições para aceder? E desta, só uma parcela tem coragem de as usar. Sim, leram bem: coragem. Considerando alguns modelos que já vi desfilar nas passerelles é preciso coragem para usar certos trajes em público. Nada que um ligeiro (ou não tão ligeiro) desequilíbrio mental não possa ajudar.

Mas a moda, ou tendência, não se fica pela roupa: ela estende-se também às novas tecnologias, aos gadgets e a muito mais. Hoje em dia toda a gente tem um tablet ou um smartphone, não é? Estão na moda, por isso faz sentido que todos tenham o seu, como é lógico. Correcto? Errado.

A maioria das pessoas não possui um tablet ou um smartphone. Arrisco mesmo dizer que a maioria das pessoas não tem telemóvel. Numa escala mundial, digo. Em Portugal é capaz de andar ela por ela. Não sei. Por cá, no que toca aos tablets, estou quase certo de que a maioria dos portugueses não possui um. Somos dez milhões e picos. A Apple, a Samsung, a Asus, e tantas outras empresas, não venderam nove milhões de tablets no nosso país.

Então, porquê chamar tendência a isto? Porquê apelidar isto de norma quando isto é, precisamente, o inverso?

Resposta: porque é bonito e giro.

Nós, como sociedade e como pessoas, somos superficiais e habituámo-nos a apelidar de tendência aquilo que achamos belo. Fazemos desse, por vezes, pouco belo (pouco em quantidade, não em qualidade, entenda-se) um máximo que não é e que nunca será, esperando com isso ocultar o feio. Como não conseguimos eliminar por completo a causa do nosso desagrado, convencemo-nos mutuamente de que ela é inferior para ser mais fácil de a ignorarmos.

Por todo o mundo ocorrem manifestações de indignação contra os ricos e os poderosos. É a chamada “Guerra dos 99 contra 1”. Lembra-me o filme 300, em que um pequeno exército de trezentos soldados espartanos enfrenta milhares de guerreiros persas. Parece um bocado injusto, mas a verdade é que os 99 estão a perder (no filme, embora os persas sofram algumas mossas, dão cabo do canastro aos espartanos). Pela lógica, estando os 99 em maioria, nem sequer se devia colocar a questão de quem é mais forte. Mais uma prova de que estar em maioria não é estar na moda.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Postigos com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s