off-date #3: CASO MIGUEL RELVAS

O Caso Miguel Relvas tem dado muito que falar. Bom, antes de começar a falar do Caso Miguel Relvas, se calhar é eu melhor especificar a que Caso Miguel Relvas eu me refiro. É que já começam a ser alguns e não quero que a interpretação deste artigo seja afectada por eu estar a opinar acerca de um determinado Caso Miguel Relvas e vocês acharem que eu estou a opinar sobre outro qualquer Caso Miguel Relvas.

(A resposta à pergunta que grassa nas vossas mentes é: sim, eu escrevi sempre Caso Miguel Relvas sem fazer copiar+colar. Em resposta a outra possível pergunta a resposta é também: sim, é possível que o parágrafo anterior seja o parágrafo onde mais vezes se escreveu Caso Miguel Relvas.)

O Caso Miguel Relvas que será analisado neste artigo tem a ver com um alegado telefonema que o ministro supra-citado (sempre quis usar esta; nota: riscar “supra-citado” da lista de palavras caras a usar) fez para a jornalista Maria José Oliveira Público, ameaçando ela e o jornal Público de boicote da parte do governo caso fossem publicadas certas notícias. Mais disse que, além do boicote, iria divulgar informações da vida privada dessa jornalista.

Peço perdão, estava tão embalado que nem me apercebi dum pequeno erro que cometi no parágrafo anterior – pequeno, porém perigoso se não observado e rectificado. Façam favor de voltar um pouco atrás e onde se lê “alegado telefonema” deve ler-se “telefonema”; onde se lê “ameaçando ela (…) jornalista” deve ler-se “afirmando veemente o seu desagrado em relação à eventual publicação de certas informações que, ao invés de enunciarem a verdade, apenas iriam evidenciar a fragilidade das fontes de informação do dito jornal, cuja leitura constitui boa parte dos momentos de lazer do senhor ministro”. Ou, como alguns dizem que disse, “Não faça isso senão fico triste consigo.”

Em suma, Miguel Relvas assumiu o telefonema, mas negou quaisquer ameaças ou pressões. Embora eu não possua quaisquer provas que corroborem ou desmintam tais informações, tudo me leva a crer que, a ser verdade que Miguel Relvas ameaçou a jornalista, essa ameaça nunca se irá concretizar. Porque é que eu digo isto? Pela simples razão de que uma ameaça mais não é do que uma promessa cujo cumprimento poderá acarretar consequências graves para a pessoa em causa. Miguel Relvas limitou-se a fazer uma promessa e sabendo nós como funcionam os políticos e as suas promessas, esta jornalista (ou qualquer jornalista que possa vir a sofrer ameaças da parte de Miguel Relvas ou de qualquer outro político) não terá muito com que se preocupar.

(Apesar da sustentabilidade do argumento utilizado no parágrafo anterior, temo que este poderá constituir a tal excepção que confirma a regra e que as ameaças alegadamente proferidas possam ser, de facto, levadas a cabo.)

A atitude do ministro Miguel Relvas – que tutela, relembro, a pasta da Comunicação Social – suscitou reações da parte de vários órgãos, entre os quais o Sindicato dos Jornalistas, que enviou para os presidentes da Comissão Parlamentar para a Ética e do Conselho Regulador da ERC uma lista de dez perguntas que pretendem ver respondidas pelo ministro. Eu li essas dez perguntas e analisei-as com a atenção que elas merecem e o primeiro comentário que se me oferece dizer é: não eram precisas tantas perguntas.

O segundo comentário é que quer me parecer que estamos a interpretar esta questão de forma errada. Estamos a partir do pressuposto de que Miguel Relvas terá ameaçado a jornalista – afirmado com veemência, quero dizer –, no sentido de atemorizá-la, quando a sua intenção poderá ter sido exactamente a oposta. Miguel Relvas tutela a pasta da Comunicação Social, como já foi aqui referido, e, como qualquer outro membro do Governo, não está imune a uma remodelação. Ora, é certo e sabido que a função maior de um ministro quando tutela determinada área é demonstrar as suas capacidades perante as várias empresas do sector, nomeadamente através da troca de favores. Essa é a abordagem mais comum: o governante favorece determinada empresa e em troca, quando sai do Governo, torna-se CEO dessa empresa.

Miguel Relvas, ao invés de ir por este caminho do favoritismo, optou por uma via menos ortodoxa. Ao ameaçar a jornalista do Público de boicote por parte do Governo demonstrou que consegue proteger as suas fontes de informação quando assim o deseja. E ao ameaçar publicar dados da vida privada da jornalista mostra que possui um acesso invejável a fontes privilegiadas. Parece uma ameaça, mas é também uma boa forma de mostrar curriculum. (Além de que uma pressão ou alegação de pressão por parte de um governante a um jornal não costuma fazer mal às vendas. Bem pelo contrário.)

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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