ângulo #4: OPORTUNIDADES DESPERDIÇADAS

Sentia-me algo desorientado. A minha vida andava sem rumo, sem propósito. Julgava que era por estar desempregado, por não estar a receber qualquer apoio do Estado, por o meu extracto bancário ter muitos débitos e poucos créditos… Afinal, aquilo que me faltava era algo muito simples. E talvez por ser simples é que eu ainda não me havia apercebido disso.

Obrigado, senhor Primeiro-Ministro, por me esclarecer que o meu problema (e talvez o de muitos outros resmungões como ou piores que eu) é eu não me ter apercebido da maravilhosa oportunidade que tenho em mãos. E maravilhosa é uma palavra, não só adequada, como também nada irónica. Estar desempregado, ter que escolher entre pagar contas, comprar comida, e não ter dinheiro para nem uma coisa nem outra, é de facto uma oportunidade inestimável. Só faltou – peço desculpa por apontar uma falha na sua mensagem; tenho a certeza que foi a pressão desses abutres dos media que o distraiu momentaneamente – dizer como. Como aproveitar estas oportunidades que a crise nos trouxe?

Antes de passar às minhas sugestões, uma breve nota. O senhor Primeiro-Ministro Passos Coelho diz que está farto de crises artificiais. Estou com ele. Onde andam as boas crises naturais? Ou mesmo as crises divinas? Estamos tão perto do fim do mundo e não se vê uma era glaciar, uma chuva de meteoritos, nada. É tudo artificial. Sem graça. Vejam lá isso.

Vamos então às sugestões, numa pequena secção a que eu chamei: SUGESTÕES PARA APROVEITAR BOAS OPORTUNIDADES

SUGESTÕES PARA APROVEITAR BOAS OPORTUNIDADES:

Está desempregado, tem contas para pagar, mal tem dinheiro para uma refeição diária. Parece o fim do mundo, não parece? Nada mais errado!

1 – Possui o peso ideal? Isto é, a sua massa corporal é a mais adequada à sua altura? Existem vários sites na Internet (pode visitar um Espaço Net municipal ou uma Biblioteca pública para aceder a esse tipo de serviço) onde basta colocar o seu peso e a sua altura e a traquitana diz logo se estão equilibrados. Se estiverem, lamento dizer, está em forma e esta oportunidade não lhe servirá para nada. Se, por outro lado, tiver uns quilinhos a mais, não ter dinheiro para uma refeição diária pode ser a oportunidade que há tanto esperava de ser tão esbelto como as estrelas da televisão que vê nas montras das lojas de electrodomésticos.

2 – No seu último trabalho alguma vez trouxe uma caneta ou um lápis para casa? Tirou fotocópias pessoais no escritório? Serviu-se de clips sem os pagar? Se utilizou algum recurso da empresa, ainda que mínimo, para fins pessoais, parabéns! Já é um mini-criminoso! Só lhe falta aproveitar esta oportunidade que o destino lhe deu e tornar-se um grande criminoso! Roubou um clip? Roube um carro blindado. São ambos de metal, não é? Tirou fotocópias pessoais? Assalte um banco. Fotocópias, papel; banco, notas, papel: é tudo a mesma coisa.

3 – No seu escritório chamavam-lhe “a pega”? Era verdade isso ou era só fama sem proveito? Se era verdade não preciso de lhe dizer o que fazer, não é? Se era só fama sem proveito, o meu conselho é que passe a corresponder às baixas expectativas que têm de si. Pode optar por ser uma prostituta ou uma acompanhante de luxo, tudo depende de si. Existem algumas diferenças entre uma profissão e outra no que concerne ao auferimento e à partilha dos ganhos. Em qualquer dos casos, pode ficar descansada que não precisa de declarar nada ao Estado.

Uma última nota, para que não vos passe nenhuma oportunidade ao lado: qualquer uma destas três opções é válida para homens e para mulheres. Uma mulher pode assaltar um banco tão bem como qualquer homem, assim como um homem pode vender o seu corpo a troco de dinheiro.

Por falar em vender o corpo, lembrei-me de outra. Não tem dinheiro e tem dois rins? Para quê? Quantas vezes por dia é que evacua? Um saquinho não lhe chegava?

Enfim, oportunidades não faltam. Só temos é de as procurar.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Uma resposta a ângulo #4: OPORTUNIDADES DESPERDIÇADAS

  1. Nuno Mendes diz:

    não gostas de acidentes “artíficiais”?! Têm muito botox e silicone?!… Isso parece-me ser preconceito para com certo tipo de “acidentes”!!…

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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