postigo #3: ISOLADAMENTE SÓ

Tenho saudades do isolamento. Não do isolamento que se vive, que se sente, em certas zonas do país; um isolamento imposto e claustrofóbico, mas do isolamento que antes tanto se apreciava na vida urbana. Os mais novos não têm memória disto. Arrisco mesmo dizer que, para eles, o tema de que tratará este artigo é tão arcaico como o 25 de Abril ou a entrada de Portugal para a CEE.

Desde muito cedo que ando em transportes públicos e sempre gostei do ar macambúzio de alguns passageiros. Não que eu tire proveito do facto de essas pessoas estarem com o espírito em baixo, é só porque- Quem é que eu estou a querer enganar? Eu tiro proveito, sim. Não fico feliz com a sua tristeza, mas aproveito o silêncio que esta providencia para ler ou para pensar um pouco. Gosto de pensar. Não é coisa que faça muito, mas gosto de o fazer às vezes.

Sempre houve ruído nos transportes públicos; não só o ruído do transporte em si, como também as vozes dos passageiros ou alguém com o volume dos fones acima dos trinta décibeis. Havia tudo isto, mas uma pessoa habituava-se porque eram ruídos, na sua maioria, esporádicos: as pessoas, a certa altura, calavam-se, e as baterias dos aparelhos esgotavam-se.

Existiam neste universo dois planetas que, para mim, eram o Paraíso. Se ter só um Paraíso já era bom, ter dois era algo indescritível. Esses Paraísos chamavam-se Metropolitano de Lisboa e Soflusa (não me lembro se nessa altura tinha esse nome). Infelizmente, não há Paraíso que dure para sempre; assim como a serpente corrompeu o Homem, também nestes dois Paraísos começou a introduzir-se um novo elemento. À panóplia de elementos produtores de ruído que já existia, juntaram-se os telemóveis e a partir daí tudo mudou.

Todos tinham o seu telemóvel. Numa primeira fase, só para fazer chamadas rápidas porque achava-se que as radiações causavam lepra; com o passar do tempo, perceberam que as orelhas continuavam intactas e ganharam confiança para passar a falar durante mais tempo. A esta fase seguiu-se a fase dos SMS: em vez de conversar, as pessoas escreviam. O aumentar da actividade escrita seria uma óptima notícia para a língua portuguesa, isto se essas mensagens fossem escritas em português, o que não era o caso.

Em todas as fases do telemóvel existiram sempre os toque e os toques sempre foram – peço desculpas pela frontalidade – estúpidos. Alguns eram e são aceitáveis – os mais simples, na minha opinião –, outros fazem demasiado alarde. É como se o proprietário, não contente em ter alguém a contactá-lo, precisasse de anunciar esse contacto ao mundo. No meio de semblantes taciturnos e sós, receber uma mensagem ou um simples “toque” é uma forma, porventura a única, de manifestar a sua diferença.

“Eu não estou só! Eu estou contactável!”

E aí reside o problema.

Hoje em dia estamos sempre contactáveis. É claro que isto trouxe algumas vantagens: imaginem, por exemplo, que vamos atrasados para o emprego, ignorando que o patrão deu tolerância de ponto. Com um telemóvel, isto já não sucederia.

Notem que não vilipendio o telemóvel ou o seu uso – eu possuo dois (um pessoal, outro de trabalho) e utilizo ambos. O que eu vilipendio e critico é o abuso que perturba terceiros como eu. Exemplo: o pessoal que gosta de ouvir música. Podiam usar fones, mas não usam porque eles acham que a música que ouvem é a melhor música do mundo; até pode ser, só que a qualidade acústica do aparelho faz com que violinos e violoncelos pareçam âminas de serrote a raspar em chapa de aço inoxidável.

Outro exemplo: as pessoas que iniciam uma chamada quando entram no transporte e só terminam quando saem. Estas pessoas escolhem a pior altura para se ter uma conversa, que é quando estão rodeadas de estranhos, que também estão a ter as suas conversas, já para não falar do barulho do transporte em si, e levam a viagem toda a dizer “Não te oiço. ‘Pera aí que não te oiço. ‘Tou? ‘Tou?” Como não condições, desligam. Passados trinta segundos, acham que já estão noutro planeta e ligam novamente. “Alô? Sou eu. Deixei-te de te ouvir. Pois, pois. ‘Tou? ‘Tou? ‘Tás a ficar sem rede. Não te oiço.”

Quando a ligação decorre sem problemas a conversa costuma ser isto:

“Sim, sou eu. Entrei agora no barco. Apanhei o das 19h30. Era para ter sido o das 19h20 mas já não cheguei a tempo. Devo chegar aí por volta das 19h50. Entre as 19h50 e as 19h55, vá. Depois apanho o 7, ou o 14, ou 1, ou o 2, ou 15, ou se calhar o 8. O que vier primeiro. Saem todos quase à mesma hora. Devem ir todos os cheios. Desejando chegar a casa estou eu.” E isto repete-se e repete-se. E quando não há mais nada para conversar, a conversa é isto: “Estamos quase a meio do rio. Mais um pouco e fico sem rede. Agora estamos a meio do rio. ‘Tou a começar a ficar sem rede. Ainda me consegues ouvir? ‘Tou? ‘Tou? Perguntei-te se me conseguias ouvir. Agora é que não te oiço mesmo. ‘Tou? ‘Tou?”

Estou a exagerar um pouco para dar alguma graça a isto. Ou será que estou? Seja como for, não se pode negar que a tecnologia (não chamemos a isto progresso, por enquanto) desenvolveu-se duma forma espantosa. Como é óbvio, isto provocou grandes modificações no nosso quotidiano. Se antigamente era difícil entrarmos em contacto com alguém porque não havia cobertura de rede suficiente, hoje em dia é ainda mais difícil evitarmos ser contactados.

Continuo a viajar em transportes públicos e continuo fiel aos meus princípios. A história que encerra este postigo é uma ficção, mas está tão perto da realidade que quase não se distingue uma da outra.

Entro no Gil Vicente, que faz a ligação Terreiro do Paço-Barreiro, subo ao primeiro andar e procuro a tristeza, o isolamento. Vejo uma mulher no último banco, lendo um livro. Não percebo qual, nem tenho qualquer interesse em saber. Dirijo-me para lá e sento-me no banco à sua frente, confiante de que não serei perturbado pela minha vizinha de trás.

Ao meu lado sentam-se dois homens; não trocam qualquer palavra entre si e eu deduzo que, apesar de formarem um par, estão tão sozinhos quanto eu. E aprecio-os por isso.

À minha frente sentam-se duas mulheres cheias de sacos de compras; têm os ossos bem largos, pois as duas ocupam três lugares. Ao lado da mulher que lê senta-se uma outra mulher também carregada de sacos de compras: também ela ocupa os dois lugares que ainda permaneciam vagos. Tiro um livro da mochila e começo a ler.

O barco arranca.

Os dois homens ao meu lado, afinal conhecem-se, estão é de trombas um com outro. Um deles resolve tomar a iniciativa e diz que precisam de conversar. Não, não precisam, penso eu. Mas é tarde demais. A serpente já se insinuou e não há nada a fazer.

As duas mulheres à minha frente começam a falar para uma terceira pessoa. Pergunto-me com quem conversarão se não está ninguém sentado à sua frente. Resposta: conversam com a mulher atrás de mim; sem se virarem para trás, note-se.

Amaldiçoo a minha sorte e estou quase a pedir-lhes que falem mais baixo; não por mim, mas pela outra senhora que lê.

É então que o telemóvel desta começar a tocar e o livro deixa de ter qualquer interesse.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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2 respostas a postigo #3: ISOLADAMENTE SÓ

  1. Mário Carvalho diz:

    Gostei Joel!

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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