postigo #2: CANIBALISMO

O ARTIGO QUE SE SEGUE CONTÉM ALGUNS ELEMENTOS QUE PODERÃO PERTURBAR OS MAIS SENSÍVEIS. NÃO É PIADA. DEPOIS NÃO SE QUEIXEM.

Por muito que o macabro nos possa chocar, existem momentos em que a ignorância se lhe sobrepõe. No passado mês de Abril, em Pernambuco, no nordeste do Brasil, foram detidas três pessoas por suspeita de homicídio. Pressionadas pelas autoridades, acabaram por confessar os seus crimes e admitir a prática de canibalismo. Os três pertenciam a uma seita macabra, cujo objectivo era “conter o avanço da humanidade”. Depositavam no canibalismo o modo para atingir esse objectivo e impingiam-no a terceiros, incautos, através de salgados com recheio de carne humana que vendiam em cafés e restaurantes da zona.

Esta notícia, ao mesmo tempo que é mórbida, macabra e, talvez, indigesta, possui, também, várias camadas de interpretação. Quase como se fosse uma lasanha, perdoem-me o trocadilho. A minha formação não me permite dizer o que levou estas três pessoas a cometer tais actos. Como leigo que sou não procurarei chegar a uma conclusão absoluta, quando os próprios especialistas são incapazes de o fazer. Existem centenas de teorias e sub-teorias para explicar comportamentos desviantes como este. Todavia, é perto de impossível determinar de forma irrefutável qual delas se atribui em cada caso.

Quanto ao acto do canibalismo propriamente dito, importa primeiro distinguir entre canibalismo e antropofagia. O primeiro é um processo natural, apesar do seu aspecto macabro. Várias espécies animais, nomeadamente aranhas e outros insectos, recorrem ao canibalismo como um mecanismo de sobrevivência. Como se sabe, na selva reina o mais apto e, após a cópula, algumas fémeas devoram o macho para que as suas proteínas produzam crias mais fortes.

A antropofagia, por sua vez, reveste-se de contornos mais ritualísticos e culturais. Fazendo uma distinção o mais simples o possível, a primeira é uma defesa, uma imposição da Natureza, se quiserem; a segunda é uma opção. Pode-se argumentar que, em alguns casos, a falta de discernimento do praticante de antropofagia não lhe permite avaliar de forma consciente as suas acções. Em certas culturas, o medo de desagradar aos deuses poderá ser observado como uma forma de antropofagia por imposição. Não faltando exemplos em que o medo do divino ou alguma insanidade, mais ou menos temporária, exercem um papel fulcral, a grande parte destas ocorrências deriva de patologias devidamente estudadas.

A nossa cultura ocidental só nos permite aceitar – e mesmo assim com muita reserva – o canibalismo se este constituir o único meio possível de sobrevivência. O canibalismo é e será sempre horrendo, porém, como o criticar quando este pode ser a última acção entre a vida e a morte?

 * * *

 No dia 13 de Outubro de 1972 (uma sexta-feira, como manda a tradição), ocorreu um dos maiores desastres aéreos de que há memória. A marca para a posteridade não decorreu do número de vítimas, nem do aparato do acidente, mas sim das acções a que os passageiros foram obrigados para sobreviver.

O Voo Força Aérea Uruguaia 571 partiu do Aeroporto Internacional de Carrasco, em Montevideu, no Uruguai, com destino ao Aeroporto de Pudahuel, em Santiago, no Chile. Pelo caminho ainda fez escala em Mendoza, na Argentina. O mau tempo que se fazia sentir levou o piloto a executar uma manobra de desvio. Os cálculos feitos não tiveram em conta a força do vento e quando retomou a rota, o avião estava em linha de colisão com uma montanha. Das quarenta e cinco pessoas a bordo, doze morreram no impacto; outras dezassete acabariam por sucumbir mais tarde, vítimas de ferimentos, fome e frio.

Os três países (Uruguai, Chile e Argentina) fizeram várias buscas pelo Voo 571, mas era praticamente impossível distinguir um avião branco em montanhas cobertas de neve. Resultado: três dias após a queda, os sobreviventes ouviram através de um rádio que as buscas iriam ser canceladas. Estavam entregues à sua sorte.

Optei por introduzir o relato deste acontecimento de forma tão alongada porque, caso não o tivesse feito, temia que as hipóteses de se compreenderem as acções cometidas pelos dezasseis sobreviventes seriam quase nulas. Dizer que eles recorreram ao canibalismo sem estabelecer um ponto de situação prévio não suscitaria a mesma reacção que expor a situação na sua totalidade. É o tipo de situação que só se pode começar a aceitar quando se está a par de todos os elementos.

As acções a que estas pessoas foram forçadas foram exactamente isso: acções forçadas. Ao contrário das três pessoas detidas em Pernambuco, os sobreviventes do Voo 571 não tiveram  outra hipótese para resistir durante os setenta e dois dias que estiveram isolados. Existe, portanto, uma clara diferença entre aquilo que é deliberado e aquilo que é ponderado.

Estas trinta e três pessoas (no final, apenas dezasseis) não tinham agasalhos e a comida era escassa pois era suposto ser um voo de curta duração. Aquilo que havia (treze barras de chocolate, tâmaras, ameixas, um pacote de biscoitos e pouco mais) foi racionado ao mínimo indispensável e quando isso terminou procuraram outras alternativas. Nando Parrado, um dos sobreviventes, conta que tentaram comer o couro das malas de viagem; houve até quem rasgasse as almofadas dos acentos na esperança de encontrar palha, para apenas encontrar espuma. A água, da qual necessitavam de cinquenta litros diários, era obtida colocando pedaços de gelo em garrafas e tentando derretê-los com o calor do corpo. Demoravam cerca de cinco horas para produzir um litro de água; por dia, conseguiam dois a três litros.

Tudo fizeram para adiar o inevitável, até que não tiveram outro remédio senão incorrer em algo que ia contra todos os seus princípios morais e religiosos. Foi nesse crítico momento que os passageiros mortos deixaram de ser amigos e família e passaram a ser alimento.

 * * *

 É um dado comprovado que algumas tribos mesoamericanas praticavam  a antropofagia. O que não está absolutamente comprovado é o porquê. Uma das teorias, de acordo com alguns historiadores, defendia que algumas tribos comiam a carne de inimigos capturados em batalha com o objectivo de absorver as capacidades e conhecimentos do inimigo. Esta actividade tinha uma forte componente ritualística, sendo o prisioneiro tratado com todas as mordomias até ao momento da sua execução.

Com a chegada dos missionários jesuítas, estes costumes tiveram de ser abandonados, ou, melhor dizendo, foram reformulados de modo a poderem continuar a ser praticados sob outra justificação. Assim, de actividade cultural e religiosa, a antropofagia passou a ser explicada como uma necessidade fisiológica. Em 1977, o historiador Michael Harner defendeu que, devido à inexistência de grandes mamíferos domésticos, os aztecas tinham de compensar a sua falta de fontes de proteínas comendo carne humana. Esta teoria foi desmentida anos mais tarde por Ortiz de Montellano que demonstrou que os aztecas haviam domesticado o peru, o pato e o cão, sendo estes fontes de proteínas mais do que suficientes para as suas necessidades alimentares.

Chamo a vossa atenção para o facto de existirem significativas diferenças de tribo para tribo. O exemplo dado no parágrafo anterior, embora aplicado às tribos aztecas, pode ser transposto para muitas outras tribos, não necessariamente no continente americano. Recorro a esta generalização porque o tempo e o espaço não me permitem abordar cada uma delas separadamente.

 * * *

 Avançando alguns séculos, até 1924, em Hannover, encontramos Fritz Haarmann, o vampiro de Hannover, condenado pelo homicídio de trinta rapazes. Além de os matar, Fritz fez salsichas com a sua carne, tanto para consumo próprio, como para venda.

Quase um século depois, ainda no mesmo país, vamos encontrar Armin Meiwes, um técnico de informática de Rotenburgo, que em 2002 publicou um anúncio na Internet procurando “jovens corpulentos entre 18 e 30 anos para abate”. Bernd-Jürgen Brandes respondeu ao anúncio, jantou com Meiwes e depois deixou-se matar. Depois de matar Brandes, Meiwes cortou várias partes do seu corpo, entre as quais o pénis, com o qual fez fondue.

Esta história, tão macabra quanto insólita, não só é um bom caso de estudo, como também um grande exemplo de uma terceira forma de canibalismo: o canibalismo sexual. Na verdade, ao contrário do canibalismo por necessidade ou da antropofagia por tradição, todos nós praticamos, ainda que apenas na nossa imaginação, o canibalismo sexual. Todos nós, já falámos, ou já pensámos, em comer determinada pessoa. Comer é uma fonte de prazer, assim como o sexo. Há quem goste de incluir alimentos nos momentos mais íntimos, outros preferem levar a coisa um pouco mais além. São caso disso o americano Albert Fish, que durante os anos 20 do século passado, violou, matou e comeu várias crianças; e o russo Andrei Chikatilo, que terá matado mais de cinquenta pessoas entre 1978 e 1990.

Enfim, existem muitas razões para explicar o canibalismo ou a antropofagia, mas, tal como afirmei no início do artigo, nenhuma que os justifiquem por completo. Em qualquer dos casos, pode-se afirmar que sempre que se come alguém uma parte dessa pessoa fica com quem a come. Não apenas o bom, mas também o mau.

Com esta ideia em mente, voltemos ao início do artigo e às três pessoas detidas em Pernambuco por prática de canibalismo. Diziam elas que o seu objectivo era “salvar o planeta, contendo o avanço da humanidade”. Até que ponto será essa uma necessidade real, é uma questão para outro artigo. A questão a ter aqui em conta é: como é que se detém algo fortalecendo-o? Por outras palavras, ao recorrerem ao canibalismo, ao absorverem características dos seus inimigos, não estarão os praticantes desta seita a tornar-se aquilo que pretendem combater? São sinuosos os caminhos da fé, e os do fanatismo ainda mais.

Se a História se repetir, como é seu hábito, desconfio que não tardará a aparecer alguém, um especialista qualquer, que defenderá que estas pessoas sofriam de uma anomalia genética causadora de um distúrbio alimentar apenas compensado pelo consumo de carne humana. Talvez. Não pretendo fingir que tenho alguma resposta concreta. Apenas especulação.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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