ângulo #2: CADA UM TEM AQUILO QUE MERECE

Há dias cruzei-me com uma mulher que me pareceu vagamente familiar. O momento foi breve, nem chegou a haver reacção da parte dela, mas eu fiquei com a sensação de conhecer aquela pessoa. Sucede-me às vezes, por na minha ainda curta vida já ter feito trabalhos de todo o tipo e de já ter andado por Portugal inteiro, ver caras na multidão que me parecem familiares. Podia ser mais um caso típico de “uma cara igual a tantas outras”, porém, eu tinha a certeza que não era isso.

Momentos mais tarde, a caminho de casa, enquanto lia um livro, a camada inconsciente da minha mente reconstruiu o encontro ocorrido minutos antes e aí fez-se luz: a mulher com quem eu me cruzara era uma colega dos meus tempos de escola (não divulgarei aqui o nome para proteger a sua privacidade). Como era possível não a ter reconhecido? Revi de novo o último encontro e depois tentei rever o que ainda restava na minha caixa de memórias do passado de há década e meia atrás.

Ao comparar a pessoa de então com a pessoa de agora, imediatamente obtive a resposta à minha dúvida. A minha colega dos tempos de escola era uma moça elegante e atraente, a típica boazona; a mulher que se cruzara comigo, com todo o respeito por quem partilhar um lar e um leito com ela, não era. Verdade seja dita, ela antes podia não ser uma top-model, mas agora quase que fazia a Simara parecer anonéctica.

Desconheço por completo o que terá causado esta metamorfose. Podem ter sido razões de ordem hormonal, emocional, física, não faço ideia. Por mais do que uma vez escrevi que o problema da obesidade é um não-problema e a minha solução para esse não-problema é: parem de comer!

A verdade é que as coisas não são assim tão simples. Nem sempre um concurso televisivo pode ajudar uma pessoa a perder peso e retomar a forma física de outros tempos. Assumo aqui o meu engano (embora possa vir a reincidir no erro mais tarde ou mais cedo) porque percebo que a pessoa a quem alguns chamam gorda pode não ter qualquer responsabilidade nisso.

Esta revelação surgiu-me no dia em que li um artigo antigo de jornal, que dava conta duma intervenção cirúrgica a que fora sujeito um senhor inglês. Tim Barter, de 32 anos, caiu de uma altura de oito metros e ficou sem parte da cabeça. Isto passou-se há três anos. Passado todo esse tempo, a cabeça de Tim foi reconstituída com o auxílio de uma placa de titânio para o lugar do crânio e gordura do seu abdómen para fazer o recheio.

De acordo com a notícia, Tim terá ficado trancado fora de casa e decidido dar uma de Homem-Aranha, entrando pela janela. Não sendo ele nem o velho Peter Parker, nem tão pouco o novo Miles Morales, deu um tralho e foi parar ao hospital. É, portanto, inteiramente por sua culpa que ele se torna o primeiro homem a ter uma cabeça feita a partir da sua própria barriga. Primeiro e único. E a exclusividade torna-o alvo de merecida chacota. Merecida porque, ao contrário (especulo eu) da minha ex-colega de escola, o destino de Tim Barter foi causado pela sua própria inépcia.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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