off-date #2: DOCES 50%

Mais uma vez o país viveu momentos de grande tensão e conflito e eu, como de costume, não participei de maneira alguma. Em 1385 foi a Batalha de Aljubarrota, na qual não participei porque já tinha coisas combinadas. Nos anos 60 e 70 do século XX foi a Guerra Colonial (ou do Ultramar, conforme a perspectiva), na qual também não participei porque não tinha o passaporte em dia.

Na passada terça-feira, dia 1 de Maio, foi a Guerra dos Descontos no Pingo Doce e eu, de novo, para minha vergonha, fiquei em casa. A fazer sabem o quê? A ver séries. Lamentável. Se pudesse até cuspia em mim. Quer dizer, não é bem se pudesse, é mais se quisesse. Repudio-me pelos meus actos, mas não cheguemos a extremos.

Eu fiquei em casa porque, para dizer a verdade, não sabia que iria haver guerra nesse dia. Todavia, mesmo que soubesse do que iria acontecer, tenho algumas dúvidas de que participaria. Não se pode dizer que seja falta de coragem, porque eu já estive em Arronches, mas sim por falta de insensatez. Dinheiro, não posso dizer que tenha muito, mas também não me posso queixar. Por enquanto. O que me falta mais é mesmo insensatez. Eu, como pessoa sensata, pensei ‘São nove da manhã. Será que devia ir para o Pingo Doce mais próximo e ficar lá até às onze da noite para trazer um carrinho cheio de produtos que eu não vou ter tempo de consumir e que se vão deteriorar? Não. Vou antes ver o Finder.’

Há dias que deixam uma marca tão forte que, mesmo passados muitos anos, as pessoas conseguem lembrar-se onde estavam e o que faziam. Este 1 de Maio de 2012 será um desses dias. Uma boa percentagem estava no Pingo Doce, outra menor estava em casa ou a passear, e outra ainda menor estava a participar nas manifestações contra o Governo organizadas pela CGTP e pela UGT. Com todo o respeito pelos movimentos sindicais, teriam tido mais adesão se uma parte dos seus associados não estivesse às compras no Pingo Doce e a outra parte a repôr prateleiras e a passar códigos de barras.

Acrescente-se ainda que ambas as manifestações, apesar de realizadas em locais distintos e com lemas próprios, contaram com uma grande participação de jovens que reinvidicavam “trabalho com condições”. Sim senhor, mas para todos, não apenas para os jovens. O problema é que as condições de emprego dependem da educação e da formação que se tem. O tipo de formação que ensina uma pessoa a não gastar aquilo que não tem. Ou a não começar uma batalha campal porque alguém só com um pacote de leite tenta passar-lhe à frente na fila.

Notas finais. Primeiro, o Pingo Doce já se defendeu de aqueles que o acusaram de cometer dumping. O dumping, para quem não sabe, consiste em vender um produto abaixo do preço de custo. Esta é a definição. Outra definição possível é “uma medida que produz grandes vantagens económicas para o cliente.” Foi mais ou menos isto que disse um responsável da cadeia embora, no entender dele, isso não constitua dumping. O princípio é quase o mesmo, a prática também, o resultado idem, mas são coisas totalmente diferentes.

Segundo, o Pingo Doce já anunciou que durante este ano irá realizar mais iniciativas do género. Não é possível dizer ao certo quantas. Tudo depende do Vaticano autorizar o Estado laico português a não assinalar dois feriados religiosos conforme foi acordado. Ou são menos quatro feriados que no ano passado, ou são menos dois. Acho que serão menos dois.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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Uma resposta a off-date #2: DOCES 50%

  1. Oi eu sou Abeln Kriegler, um canadense, originalmente de Nova Scotia vida, vivendo do outro lado da lagoa, em Londres, Inglaterra com o meu namorado beardy britânico e um gato muito esquisito. Obrigado pelo seu blog.
    Vestidos de Noiva

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

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