off-date #1: SOLIDARIEDADE 101

Um dos grandes temas dos últimos dias tem sido o vídeo do “Hino Contra o Desperdício: Portugal não se pode dar ao lixo”. Grande trocadilho. Luxo e lixo. Nunca ninguém tinha pensado nessa. E o vídeo também seria bom. Se tivesse sido feito na década de 80. Canções de solidariedade? Quem é que ainda faz isso? Ou, melhor, quem é que ainda liga a isso? Ao que parece, muita gente. Pelo menos para criticar, dizendo que a mensagem que este vídeo passa é que o pobre tem mais que comer e calar.

Eu entendo e subscrevo a intenção de ajudar, mas calma. Uma coisa é doar um pacote de arroz para o Banco Alimentar Contra a Fome ou uma outra instituição, outra é, como diz a letra da música, pegar em restos do almoço e fazer disso o jantar de alguém. Senhores artistas e pessoas desta bonita organização, a classe média, as pessoas a quem vós vos dirigis, guardam os restos do seu almoço para o jantar. Ou então para o dia seguinte. Esclareçam-me: se eu for ao McDonald’s e sobrarem-me batatas, deverei procurar o esfomeado mais próximo? Reparem que eu não escolho um sítio de fast-food em vez de um restaurante topo de gama por capricho, é porque entre um e outro só posso escolher o primeiro.

Não sei de onde veio esta ideia, esta mania, melhor dizendo. Agora fala-se do vídeo, mas na segunda-feira já se falava da decisão parlamentar de entregar as sobras alimentares aos pobres. Esta gente (e digo “gente” no sentido mais depreciativo do termo) deve achar que somos todos estúpidos. Não apenas aqueles que os elegeram.

Eu recordo que há três anos discutiu-se, creio que pela última vez, a redução do número de deputados. Todos estavam de acordo. Lindo. Unanimidade a cem por cento. Quase que verti uma lágrima. Quer dizer, estavam todos de acordo desde que isso só se aplicasse aos outros partidos; reduzir o número de deputados do seu partido, nas palavras de qualquer um deputado “colocaria em causa a representatividade democrática”. Ui! A mim se me tiram a representatividade democrática tiram-me tudo.

No caso desta medida não resultar (e não resultou mesmo), falava-se de cortar em alguns privilégios. Em que é que se cortou? Em nada. Porque o senhor deputado ganha o que ganha e depois ainda tem direito a despesas de refeição, despesas de transporte, despesas de deslocação, despesas de habitação, despesas de representação e etc. Despesas de representação? Isto não é dar crédito àquela ideia que as pessoas têm, de que é tudo uma cambada de fingidos?

Claro que não. O comum cidadão, alvo destas campanhas, pode ser mal pago e ainda ter de pagar todos os encargos a partir do seu parco salário, mas o senhor deputado cortar em algum privilégio, isso é que não. Seria um perigo para o correcto exercício das suas funções de representante do povo português.

Esta divisão da sociedade em três classes mais não faz que estabelecer uma ordem. A situação existe para ser mantida, não resolvida. Se quisessem resolver, resolviam. Campanhas de solidariedade, voluntariado, para onde quer que se olhe, a mensagem que se vê é “Olha, nós até temos posses e poderíamos resolver este problema se nos importássemos mesmo com isso, só que, em vez disso, vamos antes fazer-te sentir culpado e convencer-te a dar restos de comida ou a trabalhar de graça para ajudar os mais carenciados. É claro que isto não vai resolver nada, mas pode ser que estares próximo a tanta miséria te acagace um bocado e te convença a não te queixares tanto quando te aumentarem o horário de trabalho ou quando te reduzirem o salário.”

Termino com as palavras do grande George Carlin que definiu, melhor do que ninguém, a sociedade.

“Now, to balance the scale, I’d like to talk about some things that bring us together, things that point out our similarities instead of our differences. ‘Cause that’s all you ever hear about in this country. It’s our differences. That’s all the media and the politicians are ever talking about–the things that separate us, things that make us different from one another. That’s the way the ruling class operates in any society. They try to divide the rest of the people. They keep the lower and the middle classes fighting with each other so that they, the rich, can run off with all the fucking money! Fairly simple thing. Happens to work. You know? Anything different–that’s what they’re gonna talk about–race, religion, ethnic and national background, jobs, income, education, social status, sexuality, anything they can do to keep us fighting with each other, so that they can keep going to the bank! You know how I define the economic and social classes in this country? The upper class keeps all of the money, pays none of the taxes. The middle class pays all of the taxes, does all of the work. The poor are there just to scare the shit out of the middle class. Keep ‘em showing up at those jobs.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em off-dates com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s