postigo #1: LONGITUDE, de Dava Sobel

* A primeira edição portuguesa do livro “LONGITUDE” (Temas & Debates), de Dava Sobel,  data de 1995 e só passados dezassete anos é que eu tive a oportunidade de o ler. Pode-se especular que cheguei um pouco atrasado e talvez isso seja verdade. Contudo, prefiro pensar que, assim como o feito do protagonista, Jack Harrison, só foi reconhecido muitos anos após a sua morte, cheguei tarde, mas ainda cheguei a tempo.

Para mim, o melhor de “LONGITUDE” é a forma como Dava consegue tornar uma história, que noutro contexto (académico, por exemplo) seria quase enfadonha, numa aventura narrativa. A leitura é motivada, não pelas peripécias, uma vez que estamos a falar de relógios e de medições de tempo, mas pela sua escrita fluente e dinâmica. Considero sempre estimulante e digno de louvor quando um autor consegue universalizar a informação sem torná-la demasiado simplista. São poucos os casos em que uma obra científica ou técnica consegue chegar além daqueles com bases para assimilar os conceitos lá descritos. “LONGITUDE” é, sem dúvida, um desses casos.

“LONGITUDE” é um livro interessante, estimulante e difícil de classificar. Lê-se como um romance, mas não é um romance. Analisa a resolução de um problema científico, mas não é um livro técnico. Fala de tempo, de viagens, de biografias, de astronomia, mas não se insere especificamente em nenhum destas temas, ao mesmo tempo que se insere em todos. É, por isso, um daqueles livros que fogem à norma.

A elogiar, também, a capa da edição portuguesa. Um magnífico trabalho gráfico que deve ter causado alguma inveja aos designers originais. Existe uma versão ilustrada cuja capa, na minha opinião, está bastante mais atractiva. Ainda assim, não chama tanto a atenção como a da edição portuguesa.

Deixem-me fazer um pequeno parêntesis para vos contar uma curiosidade que ocorreu durante a leitura deste livro. Resultado da hora tardia que o relógio assinalava, ou talvez uma reacção provocada pela junção da escrita bastante visual com a minha quota parte de guionista, a certa altura, já quase no final, comecei a pensar que este livro daria uma boa mini-série. Um produto com o selo da BBC, por exemplo. Talvez com o Richard Wilson no papel de Jack Harrison. A curiosidade não foi eu ter pensado nisto. A curiosidade foi, no momento em que escrevo este artigo, decidir ir ao site IMDB e fazer uma pesquisa pelo título “LONGITUDE“. Não é da BBC, não é com o Richard Wilson, mas é com o Jeremy Irons, foi escrito e realizado pelo Charles Sturridge (autor da mini-série “Reviver o passado em Brideshead”, entre outros) e tem uma óptima pontuação.  Achei isto incrível e acrescentei mais uma entrada na minha lista de “FILMES A VER EVENTUALMENTE UM DIA ASSIM QUE POSSÍVEL”.

Voltando ao livro, procuro ler, sempre que possível, a versão original em inglês, pois acredito que é mais viva e rica do que a versão traduzida. Nada contra as traduções, apenas contra as más traduções. Antes de saber inglês, a única forma que tinha de ler autores estrangeiros era através da tradução, fossem estes bem ou mal traduzidos. A minha opinião, com todo o respeito para os bons tradutores de ontem e de hoje, é que a palavra do tradutor nunca alcança por completo a palavra do autor. Pode ficar uma tradução muito bem feita, mas o original será sempre o original.

Dito isto, esta tradução é das melhores que tenho lido ultimamente pois não dou por mim a pensar como seria esta ou aquela frase na versão original. E esse é um problema que me acontece demasiadas vezes quando leio um livro traduzido a partir de uma língua que domino: o tradutor limita-se a traduzir o que está lá escrito, em vez de reescrever a obra. Entenda-se por reescrever, não a alteração do conteúdo, mas uma reconstrução do texto que quase torne uma obra traduzida numa nova obra original.

À pessoa, ou às pessoas, pois não está identificado na ficha do livro quem fez a tradução, a quem se deve atribuir a responsabilidade por este bom trabalho devo os meus agradecimentos por me terem facilitado a leitura. À autora, devo um grande livro.

Fiquem a conhecer mais desta autora e dos seus trabalhos aqui.

* Se gostou deste artigo, partilhe-o e/ou deixe o seu comentário. Será bem vindo.

Anúncios

Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
Esta entrada foi publicada em Postigos com as etiquetas , , . ligação permanente.

Uma resposta a postigo #1: LONGITUDE, de Dava Sobel

  1. Cristina diz:

    Queria comprar este livro. Sabe onde o posso encontrar ? Se sim, por favor contacte-me para cris_silv@yahoo.com Obrigada

Muito obrigado pelo seu comentário. Note que esta é uma mensagem automática, por isso estou a agradecer um pouco às cegas. Quero acreditar que o bom gosto que o/a trouxe aqui se estende à qualidade do seu discurso.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s