PÓS-TRANSPARENTE

O ENREDO
Sofia, apaixonada por pintura, regressa a Portugal após vários anos de ausência. Traz consigo uma vontade de vingar no mundo das artes, mas falta-lhe a inspiração para pintar o quadro dos seus sonhos. Em busca dessa inspiração, Sofia isola-se até ter a sua obra concluída.

Daniel está numa fase conturbada da sua vida. Ao testemunhar um acontecimento horrível desencadeado por uma decisão sua, apercebe-se de que vive num vazio emocional, do qual é difícil escapar. Incapaz de enfrentar a sua culpa, Daniel sucumbe ao desespero e mergulha numa sequência de eventos que culminam com a sua morte.

E é aí que a história começa.

A BASE
O outro lado da vida (ou da morte) sempre me suscitou a natural curiosidade própria de quem não faz a mais pequena ideia do que está para além desta realidade. Sempre li muito sobre este tema e acho fascinante existirem tantas perspectivas diferentes sobre um assunto do qual ninguém sabe nada ao certo.

Na construção deste meu universo fictício, optei por considerar a existência de uma fonte comum da qual derivam todas as tradições e ideologias. O ‘meu’ Outro Mundo contém elementos de diversas culturas e mitologias, com alguns aspectos reinventados para servir melhor a história.

Este romance está parado há demasiado tempo, mas não está esquecido. Por razões diversas foi sendo passado para segundo plano devido à elevada pesquisa que implica e ao tempo de que não dispunha. Cerca de ¼ está escrito. Um dia escreverei o que falta.

Entretanto, aqui fica o Capítulo 1. A vossa atenção para o facto de este texto não ter sido revisto em mais de dez anos.

Capítulo 1 — Como numa teia

«Não sei porque motivo estou aqui. Não sou pessoa de jurar, mas neste momento sou bem capaz disso: juro que não sei.

O espaço à minha volta é pequeno, sujo, degradado. Os estofos vermelhos e esburacados são desconfortáveis. Muito, mas mesmo muito desconfortáveis. O chão está sujo e cheio de lixo. Matérias viscosas que me prendem. As janelas, praticamente nenhuma delas tem vidro. Estou habituado a melhores condições. Não foi por isto que paguei.

Terei mesmo pago? pergunto-me.

Estou sozinho na carruagem. Nenhum passageiro entrou, nenhum passageiro saiu. Apenas eu. E uma pequena aranha a tecer a sua teia junto da única janela ainda com vidro intacto. Atento na fragilidade da sua obra. Um esforço admirável, susceptível de ser desfeito por uma simples lufada de vento.

Desconheço se existe algum maquinista ou se a locomotiva é movida apenas pela força do meu pensamento ou, porventura, atraída por alguma espécie de íman.

Espreito pela janela e vejo uma paisagem deserta. Campos carbonizados pelas chamas. O céu escuro ainda com resquícios de fumo. O sol a ser engolido pela lua num estranho e inesperado eclipse.

O espaço à minha volta começa a desaparecer. A carruagem deixa de existir como se fosse apenas uma miragem. O sol, bem como o resto da paisagem, deixa também de existir. Fica apenas o vazio.

A sensação de deslocação através do espaço continua lá. O objectivo, seja ele qual for, também.

À distância vejo algo a aproximar-se. Outro viajante a viajar em sentido oposto. Na minha direcção. Será alguém a partir de outro destino? Ou talvez eu a regressar de um sítio ao qual ainda não cheguei?

Sinto-me a parar. Não apenas o espaço à minha volta, mas também eu. Sinto-me, melhor dizendo, estou paralisado. Por momentos penso que o objectivo desapareceu. Mas depois vejo que não. Continua lá. Seja lá ele qual for.

Nas trevas surge uma sequência de luzes.

Vermelho.

Sinto a paralisia a passar.

Amarelo.

Consigo agora mexer os dedos.

Verde.

Sinal, permissão, para avançar. Desta vez, pelos meus próprios pés. Para quê? Não sei.

Avanço, apesar de tudo. Apesar de uma decisão aparentemente simples poder ser a derradeira, avanço. É assim: quem não arrisca, não petisca. O grande problema, ou pelo menos parte dele, se é que tal existe, é que eu não sei porquê ou para quê eu arrisco. Mas arrisco. E é isso que interessa.

Na escuridão, o vazio é universal. No imenso silêncio sepulcral oiço o meu coração. Rápido e pesado. Como um martelo pneumático nas mãos de um trabalhador do leste europeu em hora de ponta.

A luz surge. As primeiras imagens nítidas também. Nada que eu compreenda. Nada que eu queira compreender. Ou encarar.

Penso em fugir.

Mas é tarde demais para reagir. Tarde demais para pensar.

O medo na forma de líquido amargo verte do céu, como gotas de chuva ácida. Temo o que vejo. E mais ainda o que não vejo. O negro. O vazio.

Ao fundo, uma figura de branco a encarar-me. A sua face oculta oscilando na distância. Cada vez mais perto, cada vez mais longe. Sempre imóvel. Uma dor indescritível assola-me o corpo. Não sei o que a provoca. Não sei como pará-la. Não sei se a quero parar.

O chão desaparece. Talvez nunca tenha existido, talvez seja a gravidade a perder o seu efeito. Sinto-me a cair num abismo sem fundo.

E depois, vindo não se sabe bem donde, não se sabe bem como, um grito a interromper o estigma do silêncio.

O meu grito. O meu estigma. O meu silêncio.

É então que me apercebo que não sei o que aconteceu à aranha.

Acordo só e desorientado como todas as noites de há uma semana para cá. Olho para o despertador — quase quatro da manhã. Dói-me a cabeça. Não muito, só um pouco. De qualquer das formas, dói, e é isso que interessa. Não a dor, mas o facto de saber que ela existe, que está lá a marcar presença.

Devo estar a ficar com febre. É o que dá andar à chuva sem chapéu em pleno Inverno. Inverno frio como há muito não se fazia sentir.

Mais um pesadelo, mais uma noite sem dormir. Sinto os pensamentos abandonados horas antes a regressarem ao activo. O meu sistema operativo pessoal, concluída a fase de arranque, encontra-se agora pronto para as habituais tarefas e consequentes mensagens de erro que, na minha vida, são uma constante. É pena é quando as coisas brecam não ser possível fazer um alt+ctrl+del. Um simples alt+ctrl+del. Só isso. Um reset mental sempre que as coisas não corressem bem. Quase sempre, portanto.

Cada noite é mais difícil que a anterior. É sempre assim, o que é mau tarde ou nunca melhora. As imagens surgem com o cair das pálpebras e instauram o medo. Não sei porque razão o temo. O sonho, digo. Será mesmo necessária uma razão para se temer o desconhecido? Nunca consegui perceber o sonho. Ou pesadelo. Tenho medo exactamente por isso mesmo, por não saber o que significa.

Desvio o lençol e o cobertor e saio da cama. Movimentos um tanto quanto ainda lentos. Chinelos, robe, e lá vou eu a caminho da cozinha, com um andar trôpego, para mais algumas chávenas de café. Talvez algumas torradas ou bolachas também. Isto se a fome aparecer até lá.

Na cozinha preparo o café (penso que deve dar para umas três chávenas, mais ou menos) e dirijo-me de imediato para a sala de estar. A fome acabou por não aparecer mas, de qualquer modo, levo também um pacote de bolachas para acompanhar. Não sou guloso, mas sei apreciar as coisas.

Da janela aberta do meu décimo segundo andar, fortaleza moderna que me mantém enclausurado do caos urbano, vejo a chuva a cair torrencialmente e a ensopar a carpete. Fecho a janela, mas deixo a persiana entreaberta. As gotas batem na caixa metálica da persiana. Às vezes penso que deveria mudar de apartamento. De preferência, para um que tenha a caixa da persiana no interior. Aquele ruído irrita. Parece que estou numa casa cercada e as gotas são como balas que me tentam acertar. É uma comparação estúpida, eu sei. É o que dá dormir pouco. Ficamos estúpidos. Estúpidos e irritantes.

Apesar de tudo, a chuva tem as suas vantagens. É uma noite boa para se ficar em casa. Mas não sozinho. O que vale é que hoje é sexta-feira e à sexta-feira nunca durmo sozinho. Não quer dizer que vá dormir, normalmente não é isso que acontece. Mas, quer eu durma quer não, o que é certo é que não o farei sozinho, e é isso que interessa.

Sento-me no sofá e acendo a televisão. Zapping rápido apenas por mera rotina. A esta hora já sei que só dá merda — tv-shops, telenovelas venezuelanas e programas que não interessariam nem ao menino Jesus se ele ainda fosse vivo. Decido aproveitar, feito o zapping, para ver um filme. Pouso a chávena no chão e caminho até à prateleira dos audiovisuais. Também chamo à prateleira onde ponho os livros prateleira dos livros.

Da minha modesta colecção de DVDs escolho um dos vários filmes que ainda não vi. Comprei-o por uma bagatela. É um vício que eu tenho desde há muito tempo: comprar só porque é barato e depois deixar ficar na prateleira a ganhar pó. Isto é válido, não apenas para os DVDs, mas também para os CDs e livros. Sou um consumidor teórico por definição; ou melhor, um consumidor intencional.

Coloco o DVD seleccionado no leitor. Sento-me no sofá, dou mais um golo no café, abro o pacote das bolachas e ponho uma metade na boca. Recheio de chocolate. Como não gosto de baunilha e sou alérgico a morango, tem de ser de chocolate. Pego no comando do leitor e acedo aos extras. Gosto de ver primeiro os extras antes de ver o filme. Este parece estar bem recheado: vários previews, um trailer, comentários do realizador, do produtor, dos protagonistas, making-off, etc., etc., etc.

Acabados os extras, passo para o filme em si. Legendas em sueco. Sim, porque não?

O filme começa. Passados dois minutos tiro as legendas. O filme está bem construído, bons diálogos, bom ritmo. Bom filme. Penso que já o deveria ter visto há mais tempo. Se calhar até já vi e não me lembro. Acontece. Não é sempre, mas acontece. Dizem que a memória humana retém tudo. O difícil é aceder à informação quando queremos.

Durante as cerca de duas horas que se seguem deixo o meu subconsciente absorver as imagens e sons emitidos. Mais tarde, eu sei que ele encarregar-se-á de pegar nessa informação, no seu significado, e convertê-lo em algo completamente diferente. Memórias dispersas de um tempo breve serão transformadas em sequências de pensamentos que darão origem a pesadelos. É assim que começa sempre.

Ocasionalmente, os olhos fecham-se, por meros segundos apenas. Nada que afecte a percepção do filme. Aproveito esses momentos para pôr o filme em pausa e ir à cozinha atestar a chávena. Três chávenas, medida certa.

Tal como eu havia previsto.

As bolachas duram a primeira meia hora. Trago também outro pacote para a meia hora seguinte. Aos setenta minutos de filme, faço uma paragem para ir à casa de banho. Muito chocolate faz sempre o seu efeito.

O filme termina em grande apoteose. Olho para o telemóvel em cima da mesa. A bateria já não está a piscar. Seis em ponto. Mais meia hora e está na hora de me começar a despachar.

Por mais que pense que este modo de vida é ridículo, por mais que saiba, continuo a fazer o mesmo. Noite após noite. Dia após dia. Porquê? Não é à falta de interesses amorosos. Tenho acção suficiente. A nível físico, quero dizer. Mas, falta-me o resto. Algo estável, não apenas físico. Algo mais que isso. Acima de tudo, alguém que me faça companhia.

No entanto, apesar de pensar assim, quantas não foram as vezes que eu, perante a oportunidade de ter tudo isso e mais, virei costas e afastei-me de um futuro promissor. Porquê? Talvez seja estúpido. Talvez tenha muita garganta mas, na hora da grande verdade, eu me afaste. Talvez aprecie muito a minha liberdade para me deixar prender dessa e de qualquer forma. Talvez sim, talvez não. Não sei.

De qualquer modo, ainda é cedo para pensar nisso. Ainda só tenho trinta e um anos. Ou sete, para ser mais exacto. Não, não sou maluco. Faço parte de uma minoria, não de malucos, que apenas comemora o aniversário de quatro em quatro anos. Se bem que no meu caso, nunca há assim muito para comemorar.

É verdade que já não sou assim tão novo quanto isso, mas tenho um espírito jovem. Penso que tenho. Além da idade, digo. Às tantas, o que eu entendo como sendo a minha irreverência inata, pode ser apenas um claro sinónimo de imaturidade ou um reflexo da minha verdadeira idade.

Não tenho medo de assumir um compromisso. Sou bem capaz disso. Simplesmente, por enquanto, ainda não encontrei ninguém além de ocasionais companheiras de cama de fim-de-semana.

Encerro a divagação e levanto-me para desligar o leitor e arrumar o DVD no sítio devido. Sento-me novamente no sofá e mudo para outro canal. A esta hora já deve estar a dar qualquer coisa de jeito. Faltam pouco mais de vinte e cinco minutos até eu me ir vestir e começar a despachar. Olho pela janela. A chuva continua a cair, parece que com ainda mais força. O vento também parece ter aumentado.

Na televisão consigo (finalmente!) encontrar um canal que está a transmitir o primeiro serviço noticioso. Durante quinze minutos tento-me inteirar da actualidade. Entre outras coisas, fico a saber que o desemprego continua a aumentar; na notícia seguinte, como contraposto à notícia anterior, um ministro, ou o primeiro—um deles—anuncia que a retoma está iminente. É interessante ver como as notícias se complementam. Sinto-me fascinado por este mundo e pela sua duplicidade intrínseca. Acho que, mesmo que quisessem ou pudessem, eles nunca iriam acabar com a dubiedade.

Passados os tais quinze minutos, levanto-me do sofá, levo a chávena para a cozinha e sigo para o quarto. Os pacotes já os tinha levado para deitar no cesto do lixo na cozinha, quando fora à casa de banho. O dia vai ser frio e chuvoso, disseram eles na televisão. Grande novidade.

Tenho ainda dez minutos antes que o despertador da aparelhagem ligue automaticamente numa rádio previamente seleccionada e comece a tocar. Por algum motivo, que eu próprio não consigo explicar, continuo a pô-lo para tocar sem necessidade alguma, visto que pouco ou nada durmo. Normalmente escolho uma rádio que passe música de dança. Detesto música de dança. Sempre detestei. Techno, House, Transe, ponho tudo no mesmo caixote. Gostos não se discutem, tudo bem. A falta dele, também não. Cada um é como é e acabou. É por isso que escolho sempre esse tipo de sonoridade para acordar.

Em sonhos, chego a imaginar-me a entrar numa discoteca e a disparar vários tiros de bazuca na aparelhagem. Por enquanto, é óbvio que não posso fazer isso, talvez nunca chegue a fazê-lo, mas em sonhos… Curiosamente, tanto o acto de disparar a bazuca nos sonhos bem como o acto de desligar a aparelhagem no mundo real assim que ela começa a tocar, são actos quase síncronos. Entendo isso como a minha primeira boa acção do dia. E muitas vezes chega a ser a única.

Enquanto escolho a roupa, o despertador começa a tocar. Rapidamente desligo a aparelhagem. Cinco segundos de audição. Acho que era uma espanhola a cantar. (Mira que es grande!; o meu espanhol resume-se a isto e pouco mais. Mentira, até percebo bem espanhol, mas recuso-me a falá-lo com eles. Quem vem cá é que tem de aprender a língua e não o contrário.) Não sei se a fulana era nativa ou apenas cantava em espanhol. Não cheguei a ouvir o suficiente para saber. A maior parte dos artistas musicais canta em inglês. Aquela resolveu cantar em espanhol. Talvez para ser original. Talvez não saiba inglês. Não me perguntem porquê. Não faço a mais pequena ideia.

Enquanto me visto, tento pôr as ideias em ordem. Sexta-feira é sempre dia de reuniões e não apenas de rambóia, como alguns costumam dizer.

Há mais de uma semana que estou nesta vida de dormir pouco e mal. Talvez não fosse má ideia ir a um médico. Talvez seja algum trauma de infância recalcado a manifestar-se na vida adulta após anos e anos de recusa em enfrentar um problema. É sempre isso. Ou é Sentia-se posto de parte quando era criança? ou então O que é que sente em relação a isso?. Fazem sempre as mesmas perguntas. O verdadeiro grande problema é que detesto psicólogos e psiquiatras e essa gentalha toda. Queimam miolos, exploram miolos, a troco de pequenas fortunas durante cinquenta minutos semanais e depois dizem: A solução tem de partir de si. Eu só estou aqui para orientá-lo. Pois sim. Estão lá é para se ‘orientarem’ à custa dos otários que caem ali de pára-quedas, isso é que estão.

Escolho um fato preto. Hoje não estou de bom humor. Deve ser por não ter dormido nada de jeito. E também porque só tenho fatos pretos. De qualquer modo, estou de mau humor e é isso que interessa.»

in S-TRANSPARENTE

 Para terminar um dia.

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Sobre Joel G. Gomes

Escritor, guionista e cronista. Autor dos romances "Um Cappuccino Vermelho" e "A Imagem". Autor do livro 'Um Cappuccino Vermelho'. Guionista das curtas-metragens 'O Atraso' (realizada por David Rebordão) e 'A Chamada' (realizada por Vasco Rosa). Cronista regular nos jornais O Rio, Jornal do Barreiro, O Primeiro de Janeiro, Jornal da Bairrada e, menos regularmente, nos jornais Voz da Póvoa e Jornal do Alto Alentejo.
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